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1861–1898

Num baile

João da Cruz e Sousa

Estavas toda de azul, Tão majestosa e elegante Que senti naquele instante Me pulsar o coração!

Cheio d’afeto, de júbilo Cheio de amor, de ternura Num momento de ventura Enlouqueci de paixão!

Então sentei-me ao teu lado E contemplei teu semblante, Tão belo, tão radiante, Tão puro, casto e gentil!

Teus olhos eram luzentes, A boca rubra e pequena, A voz mui doce e serena Qual d’ave em tarde de Abril!

Teu cabelo era aloirado Tua cintura era breve E na face mui leve, Transparecia o rubor!

Teu todo era um conjunto De encantadora beleza Que senti minh’alma presa Aos elos de santo amor!...

E a dança continuava Com incessante delírio Enquanto duro martírio Ia minh’alma rasgar!

Num antro então d’incertezas Entrou-me a frágil razão E num mar de escuridão A louca foi-se a boiar!...

Era por ti que eu sofria A tempestade moral! Para depois por meu mal Suportar a ingratidão!

E sem saber se me amavas Quis dizer-te o que sentia!... Insensato! que não via? Qu’estavas a lutar em vão!

Não via, pois abrasado Por tão ardente afeição, Fui presa — dessa atração Que tinhas sempre no olhar!

E amei-te tanto... mas tanto... Que quis dizer-te com ânsia — Oh! virgem dá-me constância!... Que hei de sempre te amar!

Assim, assim, te consagro O mais eloquente amor! Enquanto estalo — de dor Tu vais folgando a sorrir!...

E se lembrares-te um dia Do infeliz, desgraçado Desculpa-o, que foi ousado... Perdão te deve pedir!!...

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