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1861–1898

Nos campos

João da Cruz e Sousa

Por entre campos de seara loura De alegre sol puríssimo batidos, Passam carros chiantes de lavoura E raparigas sãs, de coloridos

Que a luz solar que as ilumina e doura Lembram pomares e jardins floridos, Por entre campos de seara loura. A Natureza inteira reverdece

Pelos montes e vales e colinas; E o luar que freme, anseia e resplandece, Movido por aragens vespertinas, Parece a alma dos tempos que floresce...

Enquanto que por prados e campinas A Natureza inteira reverdece. A paz das coisas desce sobre tudo! E no verde sereno d’espessuras,

No doce e meigo e cândido veludo, Tremem cintilações como armaduras Ou como o aço brunido dum escudo; Enquanto que das límpidas alturas

A paz das coisas desce sobre tudo! A casa, a rude tenda construída, Onde habitam as mães e as crianças Promiscuamente, nessa mesma vida

De perfume lirial das esperanças, Como é feliz, dos astros aquecida! Aquecida do Amor nas asas mansas A casa, a rude tenda construída.

As bocas impolutas e cheirosas Das raparigas, pródigas belezas De finos lábios púrpuros de rosas, Abrem, cheias de angélicas purezas,

As cristalinas fontes murmurosas De risos, refrescando em correntezas As bocas impolutas e cheirosas. Da vida aurora rica do seu sangue

Flameja a carne em báquicas vertigens! E quem tiver uma epiderme exangue Para ficar com essas faces virgens, Para não ser mais pálida nem langue,

Tem de beber das cálidas origens Da viva aurora rica do seu sangue. Lindas ceifeiras percorrendo searas Nos campos, ó bizarras raparigas,

Pelas manhãs e pelas tardes claras Vós desfolhais sorrisos e cantigas Que deixam ver as pérolas mais raras Dos dentes brancos, frescos como estrigas...

Lindas ceifeiras percorrendo searas!

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