Quando eu te vi pela primeira vez no palco Avassalando as almas, N’Um referver de palmas, Cheia de vida e cândido lirismo!
Senti na mente uns divinais tremores... E louco e louco, A pouco e pouco Vi rebentar o inferno cataclismo!...
Mil pensamentos galoparam, céleres Por minha fronte E do horizonte Quis arrancar os astros diamantinos,
Para arrojá-los a teus pés mimosos E arrebatado, Fanatizado Por entre um mar de cintilantes hinos!...
Esse teu busto, a genial cabeça Tão bem talhada E burilada Com o escopro límpido da arte,
Tem umas puras fulgurações suaves E a tu’alma Ardente ou calma Os corações arrasta por toda a parte!...
A encarnação tu és das maravilhas, A doce aurora, Branda e sonora Das teatrais e lúcidas ideias!...
Tens no olhar o filtro que arrebata E és profética E magnética, Possuis na voz o som das melopeias!...
És a escolhida pare as grandes lutes Esplendorosas E majestosas!... E sobre os débeis, delicados ombros,
Bem como Homero a sua lira d’ouro, Resplandecente, Trazes pendente O Infinito enorme dos assombros!...
Quando apareces tudo ri e chore, Se endeusa, agita, Como que palpita N’Uma explosão de férvidos louvores!.
E o potentado mais febril da terra Gagueja um bravo, E faz-se escravo O mais severo e nobre dos senhores!...
A Dejaset, uma Favart, Rachel, O João Caetano Como um arcano Imperscrutável, hórrido, terrível!...
Quebram as louças sepulcrais e frias E te louvando Vão reinando... Dizem que é sonho, é mito, é impossível!
Oh! tu nasceste para suplantar, JULIETA Os grandes mundos, Os mais profundos D’ess’arte bela, magistral, divina!...
E esse olhar tão expressivo e terno Já eletriza E cauteriza... É como um raio que a corações fulmina!...
Que sol é este, vão bradando os polos, Tão sobranceiro, Que o brasileiro O vasto império confundindo está?!...
Venham teólogos, venham sábios... todos Venham troianos, Venham germanos, Venham os vultos da Caldeia, lá!...
Oh! resolvei o mais atroz problema, Fundo mistério, Alto, sidério Do gênio altivo na criança, ali!...
Vamos, natura, rasga o véu dos medos, Dizei ó mares, Falai luares, Sombras dos bosques, respondei-me aqui!...
Astros da noite, tempestades, ventos Erguei as vozes, Falai velozes N’um som estranho, n’um clangor audaz!...
E respondei-me e explicai ao orbe Se essa menina, Que nos fascina É um fenômeno ou outro tanto mais!...
Tudo emudece na natura imensa E desde os Andes, Dos cedros grandes Ao verme, à pedra, às amplidões do mar!...
Tudo se oculta na invisível raia No espaço a bruma, No mar a espuma Vão-se esgarçando também, a se ocultar!...
Tudo emudece na natura imensa Quando na cena Surges serena Como a visão das noites infantis!
Dos olhos vivos dos que são teus adeptos Bem como prata Eis se desata A aluvião de lágrimas febris!...
É que tu tens esse poder superno Real, sublime Que até ao crime Faz arrastar o mísero mortal!
É que tu és a embrionária horrível, Mística, ingente Que de repente Fazes de um ser estúpido animal!...
Tudo emudece na natura imensa Desde nos campos Os pirilampos Até as grimpas colossais do céu!...
Tudo emudece e até eu JULIETA, Já delirante Vou vacilante Cair-te aos pés como um servil, um réu!!...
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