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1861–1898

III

João da Cruz e Sousa

Lobos, tigres, chacais, camelos, elefantes, Hipopótamos, ursos e rinocerontes, Leopardos e leões, panteras acirrantes, Hienas do furor, membrudos mastodontes

Tredas feras do mal, soturnos dromedários, Serpentes colossais que rastejais na treva, Monstros, monstros cruéis, medonhos, sanguinários, Cuja pata esmagante a presa aos antros leva;

Ó ventrudos judeus, opíparos, obesos, De consciência obtusa, ignóbil e caolha Que no mundo passais grotescamente tesos Com honras de entremez e grandezas de rolha;

Gafentos histriões, ridículos da moda, Que fingis entender Berlim, Londres, Paris, Mas nos altos salões, por entre a fina roda, Meteis sordidamente o dedo no nariz;

Brasonados truões, inúteis como eunuco, Que as pompas ostentais de aurífero nababo Mas apenas valeis como um limão sem suco, Tendes rabo no corpo e dentro d’alma rabo;

Nobres de papelão, milionários vândalos De ventre confortado e rosto rubicundo, Que no torvo cancã no cancã dos escândalos Sois o horrendo espantalho, a ignomínia do mundo;

Ó deuses do milhão, ó deuses da barriga, Que sentindo a aguilhada intensa da luxúria Buscais a mais em flor e linda rapariga Para então vos fartar na luxuriante fúria;

Gamenhos de toilette e convicções de lama Onde tudo afinal se atola e se chafurda, Que do clube e do esporte sintetizais a fama Mas tendes para o Bem a fibra sempre surda;

Palhaços, clowns senis, hediondos borrachos Que aos trambolhões urrais afora no universo, Desdenhando de tudo e até rindo dos fachos, Do clarão do saber em toda a parte imerso;

Almas negras, servis, d’ergástulos caóticos, Gerado no paul das lúgubres voragens, Do crime nos bulcões, nos vícios mais despóticos Aos quais tanto rendeis eternas homenagens,

Manequins, charlatães, devassos do bom-tom, Que viveis nas Babéis das grandes capitais Apodrecendo sempre infamemente com O cancro do dinheiro as forcas virginais;

Mascarados tafuis de gordos ventres de ouro, Ó bonzos do deboche e cínicos esgares, Que sois o único sol esterlinado e louro Das parvas multidões, das multidões alvares;

Fidalgos de barril, sicofantas, malandros Do templo e do bordel, da crápula de harém Que ao puro mar do Ideal, com torpes escafandros, Arrancais, p’ra vender, a pérola do Bem;

Ó trânsfugas, ladrões que difamais a terra, Que tudo poluís, do próprio lodo a flor, A serena humildade, — intrepidez da guerra. Aos beijos maternais, ao nupcial amor;

Espíritos de treva, espíritos de barro Que enegreceis de horror o sangue das papoulas E das ostentacões vos aclamais no carro, Cobertos de cetins, arminho e lantejoulas;

Que se vem de repente o Nada sepulcral Nunca deixais, sequer, no tétrico leilão, No leilão da memória, estranho, universal, Nem um som a vibrar do estéril coração!

Dentre feras brutais de ríspidos penhascos E a torrente caudal de rijos versos francos E a zombaria e o riso e as sátiras e os chascos, Nesta ides passar, aos trancos

Do mundo os naturais, zoológicos museus Despejem pare fora as pavorosas massas, Para virem reunir-se aos tábidos judeus Irromper e seguir e desfilar nas praças.

Que a cada mate, a entranha, o seio virgem se abra Jorrando tigres, leões, panteras do seu centro E na dança infernal, estrupida, macabra, Siga a pelo universo a dentro.

Gargalhadas abri a rubra flor sangrenta Da humanidade vã na amargurada boca Vai agora passar a marcha truculenta Sob o espingardear duma ironia louca.

E desfila e desfila em becos e vielas E torna a desfilar por vielas e por becos às risadas da turba, estultas e amarelas Que tem o áspero som de gonzos perros, secos...

E desfila e desfila, estrídula e execranda, Das praças na amplidão, rugindo em mar desfila, Enquanto além dardeja, heroica e formidanda, A metralha do sol que rútilo fuzila...

E mastodontes vão de braço dado a sérios Burgueses que já são bem bons comendadores E marqueses de truz, com ares de mistérios De lunetas gentis e aspectos sonhadores

Dão o braço fidalgo e airoso das nobrezas Aos ursos boreais, enquanto os conselheiros Os condes, os barões, os duques e as altezas Lá vão de braço dado aos lobos carniceiros.

E nessa singular, atroz promiscuidade, Animais e truões de catadura suína Gordalhudos heróis da infâmia e da maldade, Vendidos da honradez, velhacos de batina

Bobos, cães, imbecis, humanos crocodilos E déspotas, jograis, todos os miseráveis De todas as feições e todos os estilos, Uns aos outros lá vão jungidos, formidáveis!...

Mas a derrama um pesadelo, A agonia dum tigre, em sonhos, sobre um ventre, Agonia mortal que envolve tudo em gelo... E desfila e desfila entre sarcasmos e entre

As sátiras-fuzis, relampejando açoite, Por essa imensa aurora, estranhamente imensa Por um sol que angustia e que não tem da noite Para a Miséria a sombra atenuante e densa.

Os vícios, as paixões, os crimes, ódios e erros, Na marcha, de roldão, caminham fraternais Com bandidos, vilões, burgueses rombos, perros E focas e mastins, macacos e chacais.

Aos sobressaltos vão como visões, fantasmas Bichos de toda a casta, anões de chapéu alto, Deixando em convulsão todas as almas pasmas E o globo num tremendo e fundo sobressalto.

E nas praças, ao sol, confundem-se os bramidos, Os uivos com a expressão humana misturados, Através do sussurro e bruscos alaridos Das chacotas bestiais, dos risos trovejados.

E segue e segue e segue, afora, légua a légua Essa , ciclópica, estupenda Caminha atravessando um longo sol sem trégua, Um dia secular, um dia de legenda;

Caminha atravessando um sol de foco aberto, Por um dia fatal, interminável, mudo, O dia do remorso, aterrador, incerto Que em todo o coração crava um punhal agudo.

Mas eu quero assim mesmo, eu quero-vos assim, Em marcha tropical, à crua e ardente luz Que vos seja uma febre indômita, sem fim, Um cautério de fogo a vos queimar o pus

Venéreo da Moral, carbonizando-o até Para que nunca mais se sinta dele a origem Nem volte, como sempre, então, a ser o que é, Deixando-vos no mundo inteiramente virgem;

Eu quero-vos assim, de fachos apagados, Apagados, ao alto, os joviais , Que os tereis de acender nos campos ignorados Que de sóis de Vingança a Eternidade arou.

E depois de vagar às sátiras de todos, Na evidência da luz, numa perpétua aurora; De caminhar ao sol, por tremedais, por lodos, No tédio do sarcasmo, o tédio que a devora,

Essa Marcha afinal penetrará aos urros, Titânica, sinistra e bêbada, irrisória, Num caos de pontapés, coices, vaias e murros, Na eterna bacanal ridícula da História.

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