Skip to content
1861–1898

II

João da Cruz e Sousa

O velho, em pé, atlético e sombrio Diante do filho armado cavaleiro, No aspecto dum leão ruivo e bravio. Fala-lhe claro, d’alto e sobranceiro,

Numa solene e enérgica atitude De quem nos prélios sempre foi primeiro. O filho, grave o escuta e atende a rude Lhanez estoica de palavra augusta

Que dos lábios lhe sai, com tal saúde. Calmo, sem se mover, firme a robusta Figura solarenga do estoicismo, O velho disse esta nobreza justa:

“Aqui tens esta espada que o heroísmo Dos teus avós honrou nessas campanhas, Com o mais ousado, intrépido civismo. Freme ainda hoje em convulsões estranhas,

Palpita e anseia dentro da bainha Sonhando a luta, as implacáveis sanhas. Tu, para a teres, como eu sempre a tinha, Num triunfo imortal, quase divino,

De gládio que o valor maior continha; É necessário um grande ardor leonino, Que sejas bem idólatra do nome Que fez de mim o extremo paladino.

A ferrugem, tu vês, o aço consome... Porém, neste aço que ainda aqui fulgura, Se houver ferrugem, tira-a com o renome. Aqui tens, pois, a lâmina segura,

Alma e brasão da nossa velha casa Coberta de ovações, famosa e pura”. Calou-se um instante, como a ave que a asa Fechou no voar, já quase que abatida,

Caindo exausta junto a moita rasa. O filho, mudo e respeitoso, erguida A valente cabeça leal de moço, Formoso estava, porejando vida.

E enquanto o velho, impávido colosso, Calara-se num momento, emocionado Ficara o filho em íntimo alvoroço. Mas de repente, como iluminado

Por um clarão de glórias já extintas, Tornou o velho, aos poucos transformado: “Podes partir! Porém nunca desmintas Nas pelejas o dom da nossa fama,

Por menos força que no peito sintas. Como um clarim, por toda a parte aclama O vigor deste ferro e do teu pulso No combate que ruja, ulule e brama,”.

E cada vez mais pálido e convulso, Mais nervoso e febril e mais altivo Bradou ainda, num tremendo impulso: “Se tu, que és da minh’alma o exemplo vivo,

Meu filho, tens de ser como um cobarde, Como um vilão abjeto e repulsivo; Não faças mais de fidalguia alarde, Pega esta espada, meu Afonso, pega

E quebra-a de uma vez, que não é tarde. Pois em lugar de fazer dela entrega Aos sequiosos, feros inimigos Antes a quebre a cólera mais cega.

Ei-la, aqui tens, a leoa dos perigos, Que como outrora em minha mão lampeja Da bravura e da fama nos abrigos. Se não a tens de honrar nessa peleja

Escuta bem, ó meu amado filho, Quebra-a, e o teu nome nem manchado seja. Como eu faria noutra idade e brilho, Com outras energias musculares,

Segue-me tu no denodado trilho,,. E assim falando, em gestos singulares, E agigantado corpo retesando E um tom sinistro esparso nos olhares;

A cabeça nos ares agitando Numa alucinação, — enorme ereto, Como heroica visão, deblaterando... Fitando bem o filho predileto,

Como se de repente lhe brotasse A força hercúlea dum poder secreto. O velho, qual um templo que abalasse, A mão crispada, lívida e nervosa,

Com todo o esforço a lhe afluir na face, Partiu no joelho a espada vitoriosa.

Cookies on Poetry Cove

We use cookies to remember your language preference and — only with your consent — to learn how Poetry Cove is used. You can change your mind any time.
II · João da Cruz e Sousa · Poetry Cove