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1861–1898

II

João da Cruz e Sousa

Filósofos titãs, filósofos insanos Que destes turbilhões, que destes oceanos De lutas e paixões, de sonho e pensamentos Espalhásteis no mundo aos clamorosos ventos

A Ciência fatal, talvez como um veneno, Que os tempos abalou no caminhar sereno; Filósofos titãs, que os séculos austeros No flanco da Matéria abris, graves, severos,

Sobre o escombro da fé, da crença e da esperança, Da civilização o trilho que hoje alcança No seu aço viril as regiões supremas, Traçado em novas leis, doutrinas e problemas;

Vós que sois no Saber os monges da existência E só acreditais na força da Ciência, Que da morte sabeis os filtros invisíveis, Narcóticos, sutis, incógnitos, terríveis,

Não sabeis, entretanto, apóstolos sombrios, Como a luz da Ciência os homens estão frios, Como o tudo ficou num doloroso caos E os seres que eram bons, rudes, egoístas, maus.

Em vão! em vão! em vão! os vossos largos crânios Lutaram pelo Bem dos Bens contemporâneos! Tudo está corrompido e até mais imperfeito... Não há um lírio são a florescer num peito,

De piedade, de amor e de misericórdia... Se brota uma virtude o ascoso vício morde-a, Envilece, corrompe e abate essa virtude Com o cinismo revel dum epigrama rude...

E até muita alma vil, feroz, patibular, Impunemente sobe ao mais sagrado altar. Por isso vão passar perante a turbamulta Como abrupta avalanche, enorme catapulta,

Numa , os famulentos vícios Que cavaram no globo horrendos precipícios, Os vícios imortais, que infestam tribos, greis, Povos e gerações, seitas, templos e reis

E que são como a lava obscura da cratera Que subterraneamente em tudo se invetera. Com toda intrepidez hercúlea de acrobata Vou sobre eles soltar, gloriosa, intemerata,

A sátira que tem esporas de galhardo Cavaleiro ideal que joga a lança e o dardo. Vou com esse altanado e muscular esforço De quem galga triunfal o soberano dorso,

A crista vigorosa, altiva, sobranceira, Da mais agigantada e vasta cordilheira.

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