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1861–1898

Gusla da saudade

João da Cruz e Sousa

Nunca mais, nunca mais esses teus olhos Palpitarão nos olhos seus honestos Nem hão de vê-lo em ânsias por escolhos. Ele morreu, morreu — e os mais funestos

Lutos da dor feriram como abrolhos Teu lar e os teus — serenos e modestos. Que incalculável explosão de prantos Não inundou as almas preciosas

Dos teus irmãos, da tua mãe — uns santos Que peregrinam nestas lacrimosas Sendas da vida, em mágoas, sem encantos Como sem luz e sem orvalho as rosas.

Ah! formidável lei cruel da vida, Lei da matéria, da mudez das lousas, Da eterna noite atroz, indefinida; Tens o segredo intérmino das cousas,

E nessa dura e tenebrosa lida, Oh! nem sequer um dia só repousas. Quem sabe, ó morte, ó lúgubre, quem sabe O teu poder fatal, desapiedado

Onde se oculta e se resume e cabe. Pois nem que o céu puríssimo, azulado Cair aos pedaços, tombe e se desabe Na profundez do abismo ilimitado

E a crença humana espavorida, em gritos, Palpando o nada, esquálida, gemendo Rasgue a amplidão de estranhos infinitos, Nunca da morte saberão o horrendo

Mistério rijo e surdo dos granitos Os corações que vivem combatendo?!... Não! A Ciência penetrou, o estudo Do pensador, abriu mais horizontes

Nesse problema silencioso e mudo. O pensamento constelou as frontes, Deu a razão o mais brunido escudo E construiu as luminosas pontes

De onde se vai, com grande olhar, seguro, Atravessar as regiões sonoras Dos Ideais que irrompem do Futuro; E sem contar dos séculos as horas,

E sem temer as mil visões do Escuro, Alegremente ao fresco das auroras. Mas entretanto, ó meu amigo, escuta, Toda a saudade, a grande nostalgia

Nos deixa frios, mortos para a luta. Porque, olha, a morte é sempre uma agonia!

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