Skip to content
1861–1898

Grito de guerra

João da Cruz e Sousa

Bem! A palavra dentro em vós escrita Em colossais e rubros caracteres, É valorosa, pródiga, infinita, Tem proporções de claros rosicleres.

Como uma chuva olímpica de estrelas Todas as vidas livres, fulgurosas, Resplandecendo, — vós tereis de vê-las Rolar, rolar nas vastidões gloriosas.

Basta do escravo, ao suplicante rogo, Subindo acima das etéreas gazas, Do sol da ideia no escaldante fogo, Queimar, queimar as rutilantes asas.

Queimar nas chamas luminosas, francas Embora o grito da matéria apague-as; Porque afinal as consciências brancas São imponentes como as grandes águias.

Basta na forja, no arsenal da ideia, Fundir a ideia que mais bela achardes, Como uma enorme e fulgida Odisseia Da humanidade aos imortais alardes.

Quem como vós principiou na festa Da liberdade vitoriosa e grande, Há de sentir no coração a orquestra Do amor que como um bom luar se expande.

Vamos! São horas de rasgar das frontes Os véus sangrentos das fatais desgraças E encher da luz dos vastos horizontes Todos os tristes corações das raças...

A mocidade é uma falena de ouro, Dela é que irrompe o sol do bem mais puro: Vamos! Erguei vosso ideal tão louro Para remir o universal futuro...

O pensamento é como o mar — rebenta, Ferve, combate — herculeamente enorme E como o mar na maior febre aumenta, Trabalha, luta com furor — não dorme.

Abri portanto a agigantada leiva, Quebrando a fundo os espectrais embargos, Pois que entrareis, numa explosão de seiva, Muito melhor nos panteões mais largos.

Vão desfilando como azuis coortes De aves alegres nas esferas calmas, Na atmosfera espiritual dos fortes, Os aguerridos batalhões das almas.

Quem vai da sombra para a luz partindo Quanta amargura foi talvez deixando Pelas estradas da existência — rindo Fora — mas dentro, que ilusões chorando.

Da treva o escuro e aprofundado abismo Enchei, fartai de essenciais auroras, E o americano e fértil organismo De retumbantes vibrações sonoras.

Fecundos germens racionais produzam Nessas cabeças, claridões de maios... Cruzem-se em vós — como também se cruzam Raios e raios na amplidão dos raios.

Os britadores sociais e rudes Da luz vital às bélicas trombetas, Hão de formar de todas as virtudes As seculares, brônzeas picaretas.

Para que o mal nos antros se contorça Ante o pensar que o sangue vos abala, Para subir — é necessário — é força Descer primeiro a noite da senzala.

Cookies on Poetry Cove

We use cookies to remember your language preference and — only with your consent — to learn how Poetry Cove is used. You can change your mind any time.
Grito de guerra · João da Cruz e Sousa · Poetry Cove