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1861–1898

Feia

João da Cruz e Sousa

O teu semblante divino, Onde uma cisma vagueia, Tem a tristeza de um sino Que vibra em remota aldeia.

Para afastar os pesares A natureza tem flores, As noites os seus luares, As almas os seus amores.

A roseira tem a rosa, A cerejeira cereja E o noivado a perfumosa, Celeste benção da igreja.

E para o encanto dos olhos Há no céu tantas estrelas Que mesmo através de sobrolhos É feliz quem pode vê-las.

Só tu não tens para as mágoas As flores da natureza; Luares entre essas fráguas, Amores, nessa tristeza.

Não tens rosas de roseira Nem benção do noivado, Nem frutos da cerejeira Do teu sorriso adorado.

E nem teus olhos ao menos O encanto d’estrelas doura, Pomba de voos serenos Perdida em seara loura.

Não sei que dor, nem que sorte, Nem que sina te entristece Que andas branca como a morte E bem mais vaga que a prece.

Ai! tua sina é ser feia! Mas não é a pior sina... Muito pior é a da areia Levada na aragem fina!

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