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1861–1898

Entre a luz e sombra

João da Cruz e Sousa

Surge enfim o grande astro Que se chama Liberdade!... Dos sec’los na imensidade Eterno perdurará!...

Como as dúlias matutinas Que reboam nas colinas, Nas selvas esmeraldinas Em honra ao celso Tupá!...

Eram só cinéreas nuvens Os brasíleos horizontes! Curvadas todas as frontes Caminhavam no descrer! —

As brisas nem murmuravam... Os bosques nem soluçavam... Os peitos nem se arroubavam... — Estava tudo a morrer!...

De repente, o sol formoso Vai as nuvens esgarçando. As almas vão palpitando, Cintilam magos clarões!...

E o Índio fraco, indolente Fazendo esforço potente Dos pulsos quebra a corrente, Biparte os acres grilhões!...

Por terra tomba gemendo O vão, atroz servilismo... Rui a dobrez no abismo... Eis a verdade de pé!...

Enfim!... exclama o silvedo Enfim!... lá diz quase a medo Selvagem, nu Aimoré!... Assim, brasílea coorte,

Falange excelsa de obreiros, Soberbos, calmos luzeiros De nossa gleba gentil, Quebrai os elos d’escravos

Que vivem tristes, ignavos, Formando delas uns bravos — P’Ra glória mais do Brasil!... Lançai a luz nesses crânios

Que vão nas trevas tombando E ide assim preparando Uns homens mais p’ro porvir! Fazei dos pobres aflitos

Sem crenças, lares, proscritos, Uns entes puros, benditos Que saibam ver e sentir!... Do carro azul do progresso

Fazei girar essa mola! Prendei-os sim, — mas à escola Matai-os sim, — mas na luz! E então tereis trabalhado

O negro abismo sondado E em nossos ombros levado Ao seu destino essa cruz!!... Fazei do gládio alavanca

E tudo ireis derribando; Dormi, co’a pátria sonhando E tudo a flux se erguerá! E a funda treva cobarde

Sentindo homérico alarde, Embora mesmo que tarde Curvada assim fugirá!... Enfim!... os vales soluçam

Enfim!... os mares rebramam Enfim!... os prados exclamam Já somos livre nação!!... Quebrou-se a estátua de gesso...

Enfim!... — mas não... estremeço, Vacilo... caio, emudeço... Enfim de tudo inda não!!...

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