Para matar o letargo Da vida, e o profundo tédio, Fui, em busca de remédio, Ao cais arejado e largo.
E vi o mar formidando, Cheio de mastros e velas, Ocultos clarins vibrando Pela boca das procelas.
Vi tropéis e tropéis bruscos De ondas revoltas e crespas Com rijos ferrões de vespas Ferreteando os ares fuscos.
Vi os límpidos navios Jogados do mar incerto Como seres erradios Por inóspito deserto.
Vi tudo nublado, tudo, Céus e mares e horizontes; E sobre a linha dos montes Cair o silêncio mudo.
E eu lembrei-me quando a aurora Sobre aquelas esverdeadas Águas jorrava sonora A luz em puras golfadas.
Lembrei-me desses supremos Dias acres de alegria Na vaga loura e macia As leves palmas dos remos.
Do resplendor das viagens Num encanto matutino A doçura das aragens, Por sobre o mar cristalino.
A bicar as doces ilhas De pedra, musgos e flores, Cheias de ervas e frescores E naturais maravilhas.
Que ela a tudo perfumasse Como um rosal que floresce Que tudo que nela houvesse Resplandecesse e cantasse.
Ou ver na frente das casas, Dos vales e das colinas Os pombos batendo as asas, Entre festões de boninas.
Ir a pesca alegre e fresca Por suavíssimos luares, Numa lua pitoresca, Em cima dos salsos mares.
Quando flexível canoa Vai deixando um vivo rastro, Fundo, aberto, feito de astro, Na vaga que brilha e soa.
Quando na margem campestre De rios indefinidos Sente-se o aroma silvestre Dos aloendros floridos.
Lembrei-me até das regatas Numa hora deliciosa De manhã cheirando a rosa, Toda de fúlgidas pratas.
D’embarcar, como um fidalgo, Para aventuras de caça, Em companhia do galgo Que é das caçadas a graça.
Ir d’espingarda e d’estilo, Por madrugadas serenas, Sem males, sem dor, sem penas, Peito bizarro e tranquilo.
Bater as aves no mato Por entre arvoredos graves, Ou da beira de um regato Ver saltar em bando as aves.
E da ventura nos jorros Voltar da caça repleto Vendo ao longe o rubro teto Da casa e o verde dos morros.
Ou então ir como um duque Nas praias de mais beleza Gozar na choça de estuque Uns olhos de camponesa.
Sentir do equóreo elemento, Sobre as serras verdejantes, Ruflantes e sussurrantes As ventarolas do vento.
Deixar o espírito, avaro De vida, saúde e força, Disparar — alada corça — Pelo azul radioso, claro.
Assim, talvez que o Nirvana Do tédio e letargo imenso Não fosse uma dor humana, Dentre um nevoeiro tão denso.
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