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1861–1898

Desmoronamento

João da Cruz e Sousa

Dentro do coração, no côncavo do peito Choro a grande ilusão do amor, desfalecida, Dentre o gozo feliz, nostálgico da vida; Já exangue, afinal, já morto, já desfeito.

Por visões que adorei num vago tempo incerto Não sei por que razão avivo agora as mágoas, Num pranto doloroso e triste, como as águas Do mar grosso a bater sobre o costão deserto.

Tu, ó doce visão de perfumosas tranças, Todo o meu puro e terno sentimento invades E eu não sei o que fiz das minhas esperanças Que de longe que vão parecem mais saudades.

Tudo o que houve em meu ser de compaixão e crença Para sempre secou, secou já como um rio; Para sempre também subi ao escombro frio Da dúvida mortal, avassalante, imensa.

Para sempre me achei sem bússola e sem rumo No fundo de regiões estranhas e afastadas... As almas que eu amei, vi mudas e apagadas, Vi tudo se sumir numa espiral de fumo.

Bem depressa fiquei como um ermo remoto Como torvo areal sem plantas e sem fontes, Donde apenas se vê rasgar a terra o broto Do cardo retorcido e áspero dos montes.

Muitas vezes, porém, como entre os arvoredos Onde juntas, no val, todas as aves cantam No meio do rumor, de sombras e segredos, Sinto dentro de mim que uns sonhos se levantam.

Borboleteio, a rir, por entre os sons e as flores, Como um pássaro azul de uma plumagem linda E canto alegremente a canção dos amores, Que este peito viril sabe cantar ainda.

Lembro então corações que já me abandonaram, Que eu senti palpitar, por sobre o meu pulsando, Que vão hoje através das afeições chorando, Que sofreram comigo e que comigo amaram.

Entretanto a minh’alma em voo largo e ufano, De repente triunfal, de súbito gloriosa, Tem a pompa de sol, vermelha e luminosa, Da púrpura esvoaçante e aberta de um romano.

E esse fulgor, que vem dos meus sonhos dispersos Na névoa do passado, errantes e dolentes; Dá-me árdidos corcéis fogosos e frementes Para atrelar, jungir ao carro destes versos.

Claramente recordo e penso nas estradas Que percorri, que andei às ilusões, sozinho, Vendo que todo o amor das virginais amadas, Tinha a mesma fatal embriaguez do vinho.

Quantos entes febris, que o amor embriaga e ofusca Assim, durante a vida, ansiosamente exaustos, Não encontram, talvez, dessas visões em busca, As Margaridas vãs dos ilusórios Faustos!

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