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1861–1898

Crianças negras

João da Cruz e Sousa

Em cada verso um coração pulsando, Sóis flamejando em cada verso, e a rima Cheia de pássaros azuis cantando Desenrolada como um céu por cima.

Trompas sonoras de tritões marinhos Das ondas glaucas na amplidão sopradas E a rumorosa musica dos ninhos Nos damascos reais das alvoradas.

Fulvos leões do altivo pensamento Galgando da era a soberana rocha, No espaço o outro leão do sol sangrento Que como um cardo em fogo desabrocha.

A canção de cristal dos grandes rios Sonorizando os florestais profundos, A terra com seus cânticos sombrios, O firmamento gerador de mundos.

Tudo, como panóplia sempre cheia Das espadas dos aços rutilantes, Eu quisera trazer preso à cadeia De serenas estrofes triunfantes.

Preso à cadeia das estrofes que amam, Que choram lágrimas de amor por tudo, Que, como estrelas, vagas se derramam Num sentimento doloroso e mudo.

Preso à cadeia das estrofes-quentes Como uma forja em labareda acesa, Para cantar as épicas, frementes Tragédias colossais da Natureza.

Para cantar a angústia das crianças! Não das crianças de cor de oiro e rosa, Mas dessas que o vergel das esperanças Viram secar, na idade luminosa.

Das crianças que vêm da negra noite, Dum leite de venenos e de treva, Dentre os dantescos círculos do açoite, Filhas malditas da desgraça de Eva.

E que ouvem pelos séculos afora O carrilhão da morte que regela, A ironia das aves rindo a aurora E a boca aberta em uivos da procela.

Das crianças vergônteas dos escravos Desamparadas, sobre o caos, à toa E a cujo pranto, de mil peitos bravos, A harpa das emoções palpita e soa.

Ó bronze feito carne e nervos, dentro Do peito, como em jaulas soberanas, Ó coração! és o supremo centro Das avalanches das paixões humanas.

Como um clarim a gargalhada vibras, Vibras também eternamente o pranto E dentre o riso e o pranto te equilibras De forma tal que a tudo dás encanto.

És tu que à piedade vens descendo. Como quem desce do alto das estrelas E a púrpura do amor vais estendendo Sobre as crianças, para protegê-las.

És tu que cresces como o oceano, e cresces Até encher a curva dos espaços E que lá, coração, lá resplandeces E todo te abres em maternos braços.

Te abres em largos braços protetores, Em braços de carinho que as amparam, A elas, crianças, tenebrosas flores, Tórridas urzes que petrificaram.

As pequeninas, tristes criaturas Ei-las, caminham por desertos vagos, Sob o aguilhão de todas as torturas, Na sede atroz de todos os afagos.

Vai, coração! na imensa cordilheira Da Dor, florindo como um loiro fruto Partindo toda a horrível gargalheira Da chorosa falange cor do luto.

As crianças negras, vermes da matéria, Colhidas do suplício a estranha rede, Arranca-as do presídio da miséria E com teu sangue mata-lhes a sede!

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