Em cada verso um coração pulsando, Sóis flamejando em cada verso, e a rima Cheia de pássaros azuis cantando Desenrolada como um céu por cima.
Trompas sonoras de tritões marinhos Das ondas glaucas na amplidão sopradas E a rumorosa musica dos ninhos Nos damascos reais das alvoradas.
Fulvos leões do altivo pensamento Galgando da era a soberana rocha, No espaço o outro leão do sol sangrento Que como um cardo em fogo desabrocha.
A canção de cristal dos grandes rios Sonorizando os florestais profundos, A terra com seus cânticos sombrios, O firmamento gerador de mundos.
Tudo, como panóplia sempre cheia Das espadas dos aços rutilantes, Eu quisera trazer preso à cadeia De serenas estrofes triunfantes.
Preso à cadeia das estrofes que amam, Que choram lágrimas de amor por tudo, Que, como estrelas, vagas se derramam Num sentimento doloroso e mudo.
Preso à cadeia das estrofes-quentes Como uma forja em labareda acesa, Para cantar as épicas, frementes Tragédias colossais da Natureza.
Para cantar a angústia das crianças! Não das crianças de cor de oiro e rosa, Mas dessas que o vergel das esperanças Viram secar, na idade luminosa.
Das crianças que vêm da negra noite, Dum leite de venenos e de treva, Dentre os dantescos círculos do açoite, Filhas malditas da desgraça de Eva.
E que ouvem pelos séculos afora O carrilhão da morte que regela, A ironia das aves rindo a aurora E a boca aberta em uivos da procela.
Das crianças vergônteas dos escravos Desamparadas, sobre o caos, à toa E a cujo pranto, de mil peitos bravos, A harpa das emoções palpita e soa.
Ó bronze feito carne e nervos, dentro Do peito, como em jaulas soberanas, Ó coração! és o supremo centro Das avalanches das paixões humanas.
Como um clarim a gargalhada vibras, Vibras também eternamente o pranto E dentre o riso e o pranto te equilibras De forma tal que a tudo dás encanto.
És tu que à piedade vens descendo. Como quem desce do alto das estrelas E a púrpura do amor vais estendendo Sobre as crianças, para protegê-las.
És tu que cresces como o oceano, e cresces Até encher a curva dos espaços E que lá, coração, lá resplandeces E todo te abres em maternos braços.
Te abres em largos braços protetores, Em braços de carinho que as amparam, A elas, crianças, tenebrosas flores, Tórridas urzes que petrificaram.
As pequeninas, tristes criaturas Ei-las, caminham por desertos vagos, Sob o aguilhão de todas as torturas, Na sede atroz de todos os afagos.
Vai, coração! na imensa cordilheira Da Dor, florindo como um loiro fruto Partindo toda a horrível gargalheira Da chorosa falange cor do luto.
As crianças negras, vermes da matéria, Colhidas do suplício a estranha rede, Arranca-as do presídio da miséria E com teu sangue mata-lhes a sede!
Cookies on Poetry Cove