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1861–1898

Clarões apagados

João da Cruz e Sousa

Flor de planta aromática, sinistra, Nascida nas inóspitas geleiras, Célebre flor que o meu Ideal registra, Trepadeira das raras trepadeiras.

Serpe nervosa entre as nervosas serpes, Carnívora bromélia da luxúria De gozo tetaniza como as herpes Da tua boca a polpa atra e purpúrea.

O teu amor, que lembra vinhos de Hebe E essa áspera feição do abeto fusco, Como um réptil que salta numa sebe, Saltou-me ao peito, impetuoso e brusco.

Eu ia por estranhos descampados, Por extensos desertos impassíveis, Na trágica visão dos naufragados Perdidos entre os temporais terríveis.

Sem rumo certo, num sombrio inferno, Sozinho, sobre a desolada areia Arrastando a existência, de onde, eterno Um sapo coaxa e um rouxinol gorjeia.

Quando tu de repente, então surgiste Beleza das belezas redentoras, Tendo essa meiga formosura triste Das formosas e flébeis pecadoras.

Fosse talvez uma tremenda insânia Tão alta erguer o meu amor, tão alto; Mas este coração frio, da Ucrânia, Anelava galgar o céu de um salto.

E fui, galguei, subi, voei na altura, Além dos verdes píncaros do monte, Donde resplende a tua formosura No clarão das estrelas do horizonte.

Foi o mesmo que se eu num templo entrasse E aí num formidável sacrilégio, As angélicas vestes arrancasse Das santas de áureo diadema régio.

Como um leão sem juba e garra, preso, Na indiferença, já morreu comigo Todo esse amor profundamente aceso Na ideal constelação de um sonho antigo.

Apenas pelo saara imorredouro Do longínquo passado, ergue, altaneira, Majestosa folhagem no sol d’ouro, Dessas recordações a alta palmeira...

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