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1861–1898

Cabelos e olhos

João da Cruz e Sousa

Na escura treva espessa de uns cabelos, No loiro sol doirado de umas tranças, Que de amorosos e profundos elos, Quanta ilusão e quantas esperanças.

Se a noite ou o claro dia das madeixas Tivesse voz e com ardor falasse, Que turbilhão de desoladas queixas Talvez por muito tempo nos contasse.

E os beijos quentes, os supremos beijos Cheios do coração dos que se adoram Cantariam de amor e de desejos Os sons que nuns cabelos se evaporam.

Repetiram toda a cavatina Em que os amantes vivem doidamente: Alma com alma em região divina, Lábios unidos num fervor calente.

E os olhos que traduzem quase tudo Do nosso apaixonado sentimento Que mundo de afeições, gelado e mudo, Não nos diriam, solto já no vento...

Que originais, que cândidos mistérios, Que ventura serena e luminosa Uns olhos secos e doces, límpidos, etéreos Não cantariam, numa luz saudosa.

Que impenetráveis, tristes aventuras, Que desesperos trágicos, infindos, Quantas quimeras ideais e puras Não nos diriam tantos olhos lindos.

De uns olhos quantos sonhos e quanta crença, Que pássaros de afagos e carinhos Não teriam de abrir sua asa imensa Como de dentro da maciez de ninhos.

Cabelos e olhos! — A alma indefinida É presa da emoção destes cuidados, Duns olhos e cabelos, que na vida Servem de talismã aos desgraçados!

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