Na escura treva espessa de uns cabelos,
No loiro sol doirado de umas tranças,
Que de amorosos e profundos elos,
Quanta ilusão e quantas esperanças.
Se a noite ou o claro dia das madeixas
Tivesse voz e com ardor falasse,
Que turbilhão de desoladas queixas
Talvez por muito tempo nos contasse.
E os beijos quentes, os supremos beijos
Cheios do coração dos que se adoram
Cantariam de amor e de desejos
Os sons que nuns cabelos se evaporam.
Repetiram toda a cavatina
Em que os amantes vivem doidamente:
Alma com alma em região divina,
Lábios unidos num fervor calente.
E os olhos que traduzem quase tudo
Do nosso apaixonado sentimento
Que mundo de afeições, gelado e mudo,
Não nos diriam, solto já no vento...
Que originais, que cândidos mistérios,
Que ventura serena e luminosa
Uns olhos secos e doces, límpidos, etéreos
Não cantariam, numa luz saudosa.
Que impenetráveis, tristes aventuras,
Que desesperos trágicos, infindos,
Quantas quimeras ideais e puras
Não nos diriam tantos olhos lindos.
De uns olhos quantos sonhos e quanta crença,
Que pássaros de afagos e carinhos
Não teriam de abrir sua asa imensa
Como de dentro da maciez de ninhos.
Cabelos e olhos! — A alma indefinida
É presa da emoção destes cuidados,
Duns olhos e cabelos, que na vida
Servem de talismã aos desgraçados!