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1861–1898

Arte

João da Cruz e Sousa

Como eu vibro este verso, esgrimo e torço, Tu, Artista sereno, esgrime e torce; Emprega apenas um pequeno esforço Mas sem que a Estrofe a pura ideia force.

Para que surja claramente o verso, Livre organismo que palpita e vibra, É mister um sistema altivo e terso De nervos, sangue e músculos, e fibra.

Que o verso parta e gire — como a flecha Que d’alto do ar, aves, além, derruba; E como os leões, ruja feroz na brecha Da Estrofe, alvoroçando a cauda e a juba.

Para que tenhas toda a envergadura De asa e o teu verso, de ampla cimitarra Turca, apresente a lâmina segura, Poeta, é mister, como os leões, ter garra.

Essa bravura atlética e leonina Só podem ter artistas deslumbrado: Que souberam sorver pela retina A luz eterna dos glorificados.

Busca palavras límpidas e castas, Novas e raras, de clarões radiosos, Dentre as ondas mais pródigas, mais vastas Dos sentimentos mais maravilhosos.

Busca também palavras velhas, busca, Limpa-as, dá-lhes o brilho necessário E então verás que cada qual corusca Com dobrado fulgor extraordinário.

Que as frases velhas são como as espadas Cheias de nódoa, de ferrugem, velhas Mas que assim mesmo estando enferrujadas Tu, grande Artista, as brunes e as espelhas.

Faz dos teus pensamentos argonautas Rasgando as largas amplidões marinhas, Soprando, à lua, peregrinas flautas, Louros pagãos sob o dossel das vinhas.

Assim, pois, saberás tudo o que sabe Quem anda por alturas mais serenas E aprenderás então como é que cabe A Natureza numa estrofe apenas.

Assim terás o culto pela Forma, Culto que prende os belos gregos da Arte E levará no teu ginete, a norma Dessa transformação, por toda a parse.

Enche de estranhas vibrações sonoras A tua Estrofe, majestosamente... Põe nela todo o incêndio das auroras Para torná-la emocional e ardente.

Derrama luz e cânticos e poemas No verso e torna-o musical e doce Como se o coração, nessas supremas Estrofes, puro e diluído fosse.

Que as águias nobres do teu verve esvoacem Alto, no Azul, por entre os sóis e as galas, Cantem sonoras e cantando passem Dos Anjos brancos através das alas...

E canta o amor, o sol, o mar e as rosas, E da mulher a graça diamantina E das altas colheitas luminosas A lua, Juno branca e peregrine.

Vibra toda essa luz que do ar transborda Toda essa luz nos versos vai vibrando E na harpa do teu Sonho, corda a corda, Deixa que as Ilusões passem cantando.

Na alma do artista, alma que trina e arrulha Que adora e anseia, que deseja e que ama Gera-se muita vez uma fagulha Que se transforma numa grande chama.

Faz estrofes assim! E após na chama Do amor, de fecundá-las e acendê-las, Derrama em cima lágrimas, derrama, Como as eflorescências das Estrelas...

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