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1861–1898

Ao ar livre

João da Cruz e Sousa

Tu trazes agora o peito Como essas urnas sagradas, Repleto de gargalhadas, Sonoro, bom, satisfeito.

Por dentro cantam assombros E causas esplendorosas Como latadas de rosas Dos muros entre os escombros.

Quando o ideal nos alaga, Embora as lutas do mundo, Levanta-se um sol fecundo Do peito em cada uma chaga.

Voltou-se a seiva de outrora, De outro, mais forte e destro, Iluminado maestro, Das harmonias da aurora.

Fulgurem por isso as musas, As belas musas, por isso... Voltou-te o passado viço, Foram-se as mágoas, confusas.

Agora, quando eu dirijo Meus passos, à tua porta, Sinto-te um bem que conforta, Vejo-te alegre e mais rijo.

Porque afinal pela vida Nem tudo se desmorona Quando se vaga na zona Da mocidade florida.

Gostas de ver pelos ramos Das verdes árvores novas, A chocalhar umas trovas, Coleiros e gaturamos.

Já podes bem comer frutas, Os teus simpáticos jambos, E ouvir alguns ditirambos Da natureza nas grutas.

Podes olhar as esferas, Com ar direito e seguro, De frente para o futuro, De lado para as quimeras.

Não tenhas cofres avaros De santos — na luz te afoga, E a alma arremessa e joga Por esses páramos claros.

Reúne os sonhos dispersos Como andorinhas vivaces E o colorido das faces Ao coberto dos versos.

Como uns lábaros vermelhos, Contente como os lilases, As crenças dos bons rapazes Tem prismas como os espelhos.

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