Na calma irradiação das noites estreladas Alto e claro aparece, alto, aparece, claro, Alvo, claro, no luar das estrelas prateadas, No triunfal esplendor celestemente raro.
O seu busto de Excelso, a sua graça fina, A linha de harpa ideal do seu perfil augusto, Estremecem de luz, de uma luz peregrina, Do secreto fulgor de um sentimento justo.
Serenidade e glória e paz do Paraíso Flutuam-lhe na face alvorecida e doce E quando ele sorri é como se o sorriso Claros astros semear por todo o espaço fosse.
Leve, loura, radial, a soberba cabeça Eleva-se da flor do níveo colo louro E não há outro sol que tanto resplandeça Como o sol virginal dessa cabeça de ouro.
As mãos esculturais, de ebúrnea transparência, De divina feitura e de divino encanto, Lembram flores sutis de sonhadora essência Da etérea languidez e de etéreo quebranto.
Das madeixas reais largo deslumbramento Num flavo jorro cai, com sagrado abandono... E sai do Anjo o quer que é de vago e de nevoento Que lembra o despertar sonâmbulo de um sono...
De alto a baixo, do Azul, desfilando das brumas, Abre todo ele em flor como nevado lírio, Belo, branco, eteral, do candor das espumas, Banhado nos clarões e cânticos do Empíreo.
Maravilhoso e nobre ergue no braço ovante Um gládio singular que rútilo cintila... Enquanto o seu olhar de mágico diamante Aflora em plenilúnio através da pupila.
Que o seu olhar, então, esse, recorda tudo O quanto há de tranquilo e luminoso e casto. Maio de ouro a florir meigos céus de veludo E a neve a cintilar sobre o monte mais vasto.
Do puro albor astral das asas majestosas Desprendem-se no Azul mistérios de harmonia... Entre as angelicais suavidades radiosas Parece o Anjo Gabriel o alto Enviado do Dia!
Na chama virginal de tão rara beleza Brilha a força de um Deus e a mística doçura... E sai das seduções de tamanha pureza Toda a melancolia errante da ternura.
Do suntuoso agitar das delicadas vestes Tecidas de jasmins, de rosas, de açucenas, Vem o aroma cristão dos aromas celestes Todas as imortais emanações serenas...
Transfigurado, excelso, agigantado, imenso, Na candidez hostial das formas impecáveis, Fica parado no ar, levemente suspenso De raios siderais, de fluidos inefáveis.
Mas quando o seu perfil nas amplidões floresce E das asas se lhe ouve a música sonora Quando ele agita o gládio e as madeixas, parece Que vai noctambular pelo Infinito afora.
E alto, branco, de pé, destacado no Espaço, Eleito das Regiões de estranhas Primaveras, Traça, com o gládio no ar, alevantando o braco, Uma cruz de Perdão na mudez das Esferas!
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