Morta, morta de amor e de saudade,
Separada de mim por longo espaço,
Penetraste da cova a imensidade
Sem o meu louco e derradeiro abraço.
Cedo gelaste em meio de uma estrada
Constelada d’estrelas luminosas
E no regaço e à trança perfumada
Em vez de beijos meus levaste rosas.
Não pude, longe, errante, por desertos,
Nesses ínvios atalhos vãos da vida
Mandar-te, como pássaros incertos,
Os sonhos da minh’alma condoída.
Cedo gelaste, ó carne dos meus beijos,
Por entre a podridão da terra escura...
Oh! não nascer a flor dos meus desejos
Da tua boca saborosa e pura.
Não te nascer dos olhos sedutores,
Voluptuosos, tropicais, ardentes
O bálsamo vital de tantas dores,
A saúde da fé para os descrentes.
Que lágrimas febris hei de eu, chorando,
Verter em cima dessa campa fria
Se as lágrimas em mim já vão secando
Nesta vida de trágica ironia!
Que eu, afinal, semelho-me às crianças
Cheias das verdes ilusões primeiras: —
Pois para perfumar as esperanças
Plantei no meu quintal muitas roseiras.
Que elas brotem agora, que floresçam
Para ventura dos meus pobres olhos,
Que vermelhas e brancas resplandeçam
Por sobre dores e por sobre escolhos.
Que elas perfumem todo o meu sentido
E vão, na cova onde o teu corpo existe,
Dizer que neste peito emudecido
Há o silêncio de uma dor mais triste.