Skip to content
1861–1898

À que está morta

João da Cruz e Sousa

Morta, morta de amor e de saudade, Separada de mim por longo espaço, Penetraste da cova a imensidade Sem o meu louco e derradeiro abraço.

Cedo gelaste em meio de uma estrada Constelada d’estrelas luminosas E no regaço e à trança perfumada Em vez de beijos meus levaste rosas.

Não pude, longe, errante, por desertos, Nesses ínvios atalhos vãos da vida Mandar-te, como pássaros incertos, Os sonhos da minh’alma condoída.

Cedo gelaste, ó carne dos meus beijos, Por entre a podridão da terra escura... Oh! não nascer a flor dos meus desejos Da tua boca saborosa e pura.

Não te nascer dos olhos sedutores, Voluptuosos, tropicais, ardentes O bálsamo vital de tantas dores, A saúde da fé para os descrentes.

Que lágrimas febris hei de eu, chorando, Verter em cima dessa campa fria Se as lágrimas em mim já vão secando Nesta vida de trágica ironia!

Que eu, afinal, semelho-me às crianças Cheias das verdes ilusões primeiras: — Pois para perfumar as esperanças Plantei no meu quintal muitas roseiras.

Que elas brotem agora, que floresçam Para ventura dos meus pobres olhos, Que vermelhas e brancas resplandeçam Por sobre dores e por sobre escolhos.

Que elas perfumem todo o meu sentido E vão, na cova onde o teu corpo existe, Dizer que neste peito emudecido Há o silêncio de uma dor mais triste.

Cookies on Poetry Cove

We use cookies to remember your language preference and — only with your consent — to learn how Poetry Cove is used. You can change your mind any time.
À que está morta · João da Cruz e Sousa · Poetry Cove