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1861–1898

A imprensa

João da Cruz e Sousa

A lâmpada gigantesca Das glórias do porvir, Turíbulo majestoso No mundo a irradir,

É a imprensa tesouro E c’roa de verde louro A fronte do escritor! E centelha sublimada

Que vem do céu arrojada A treva dando fulgor! — O homem nasceu pequeno Mas com as letras cresceu

Foi como o vulto de Rodes Que lá tão alto s’ergueu! Foi preciso — estudando Co’a própria ideia lutando

Mergulhar-se na luz! Foi preciso ter glória, Brilhante, leda memória, Colher renomes a flux!

Foi preciso mil lutas Mil labores insanos P’ra descobrir nesses mundos Da diva luz os arcanos!

Foi preciso que um bravo Não mostrando-se ignavo Mas inspirado por Deus! A pedra bruta talhasse

E a luz então derramasse Qual seiva santa dos Céus! Foi preciso os séculos Ainda um pouco nas trevas

Erguessem as frontes bem alto E devastassem mil selvas! Foi preciso que o mundo Sentisse abalo profundo

Ao desvendar— se o saber! Foi preciso que os entes Ou se erguessem potentes Ou tombassem a morrer!

Mas não! — o homem ergueu-se, Quase, quase com Deus Tirou a fronte da treva E só pregou-a nos Céus!

Viu o futuro de louros E quis colher os tesouros Que dão renome sem fim! Sonhou, sonhou co’a vitória

E o gládio teve da glória Qual o grão Bernardim! O homem, gênio sublime, Caminha, com seu bordão

Até achar o brilhante A luz, a luz da razão! Tropeça um pouco, se tomba Ergue-se, voa qual pomba

E indo a luz descobrir, Busca ouvir no infinito Do eco ao longe este grito: Trabalha para o porvir!

Quando os povos modernos, Sentirem no coração Uma ardente centelha Que caia lá d’amplidão!

Deixarão esses vícios, Insanos, negros, fictícios Que dão só noite ao viver! E irão curvados a ela

Depor-lhe verde capela Farão então por crescer! Camões, Milton, Abreu, Já da vida sem lampas,

Erguei-vos crânios altivos Espedaçai essas campas! Dizei — se o homem caminha Se na treva definha

A quem se deve louvar?!... S’as letras seguem ovantes Dizei ó nobres gigantes A quem se ergue alcaçar?!!...

E Guttenberg esse herói, Essa vergôntea dinal, Que co’escopro na destra! Foi das letras fanal!

Ao descobrir a imprensa Essa epopeia imensa Para toda a nação, Com glória ingente sonhava

Na luz por certo nadava Já tinha os louros na mão!

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