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1861–1898

A ideia ao infinito

João da Cruz e Sousa

Era uma coluna de artistas!... Ao lado Tasso Medindo as múltiplas conquistas Co’as amplidões do espaço!...

Seguia-se João Caetano Embuçado da glória no divinal arcano!... Depois Joaquim Augusto Altivo, sobranceiro, erguido o nobre busto.

Depois Rachel, Favart, Fargueil, a espadanar Nas crispações homéricas da arte, Constelações azuis por toda a parte!

E em suave ondulação os astros Vão de rastros Roubar mais luz às rúbidas auroras!... Quais precursoras

Do mais ingente e mago dos assombros, Do orbe imenso nos calcáreos ombros, Rola um dilúvio, um grande mar de estrelas Que lançam chispas cambiantes, belas!...

Há um estranho amalgamar de cousas Como os segredos funerais das lousas Ou o rebentar de artérias — Ou o esgarçar de brumas,

Negras, cinérias — Ou o referver de espumas, Nas longas praias Alvinitentes, mádidas, sem raias.

Do brônzeo espaço, Das fibras d’aço Como que desloca-se um pedaço Que vai ruir com trépido sarcasmo

Nas obumbradas regiões do pasmo... — O Invisível Geme uma música, lânguida, saudosa, Que vai sumir-se na entranha silenciosa

Do impassível! — O Imutável — O Insondável La vão cair no seio do incriado.

E o bosque irado A soletrar uns cânticos titânios Lança nos crânios Aluvião de auras epopeias

Tétricas ideias!... E o pensamento embrenha-se nos mares E vê colares De níveas pérolas, límpidas, nitentes

E vê luzentes Conchas e búzios e corais, — ondinas Que peregrinas Aspásias são de lúcida beleza,

De moles formas, desnudadas, brancas Sendo a primesa Dessas paragens hiemais e francas!... — Ou quais Phrynés

A quem aos pés O mundo em ânsias, reverente adora E chore e chora!!... Mas a ideia o pensamento insano

As asas bate em busca de outro arcano, E o manto rasga do horizonte eterno Vai ao superno Ao Criador, ao Menestrel dos mundos!

E n’uns arroubos, rábidos, profundos Em luta infinda — Oh! quer ainda Quer escalar o templo do impossível,

Bem como um raio abrasador, terrível!... Quer se fartar de maravilhas loucas, Quer ver as bocas Dos colossais Antheus da eternidade!...

Quer se fartar de luz e divindade E de saber, Depois jazer Nas invisíveis cobras do insondável,

Bem como um verme, mísero, imprestável!... — Ou quer ousado Descortinar os crimes do passado E apalpar as gerações dos Gracos

Dos Espartanos E dos Troianos E dos Romanos, Dos Sarracenos

E dos Helenos, E esbarrar nesse montão de ossos Por esses fossos Tredos, medonhos, sepulcrais e frios

Onde sombrios Andam espíritos de pavor, errantes E vacilantes Como a luzinha das argênteas lampas,

Lentos e lentos através das campas!... Mas a ideia, o pensamento audaz Quer ainda mais!... Quer do ribombo do trovão pujante

Já n’um esforço adamastório, tredo Embora a medo, — O atroz segredo Com que ele faz a terra palpitante!...

E quer dos ventos Dos elementos Quer do mistério a solução! — Nas trevas Hórridas, sevas,

A gargalhada Ríspida, negra irônica, pesada, Estruge enfim, da morte legendária, E a ideia vária

Ainda n’isso ousando penetrar, Tenta sondar!... E em vão, em vão A mergulhar-se em tanta confusão

Não mais compreende — O que saber pretende!... Assim, oh! gênio, Na ofuscadora auréola do proscênio

Não sei se és astro, se és Esfinge ou mito, Se do infinito Possuis o encanto, os esplendores grandes, Ou se dos Andes

Águia tu és, ou és condor divino, — Ou és cometa de cuja cauda enorme É multiforme Só lágrimas de prata

Ou mesmo se desata Um vagalhão de palmas, diamantino!!... Minh’alma oscila e até na fronte sinto Medonho labirinto,

Estúpida babel, E vou cair, revel No pélago sem fim dos nadas materiais!... E como os racionais

Eu fico a ruminar ainda umas ideias De erguer-te, o novo Talma Um trono singular, mas feito de — Odisseias De brancas alvoradas,

Olímpicas, nevadas, Dos êxtases magnéticos, nervosos de minh’alma!

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