À noite, na alcova escura,
Tua imagem me aparece:
Minh’alma, que não te esquece,
Dentro de um sonho, fulgura!
Vens, nas horas de saudade,
Consolar-me, se estou triste,
Com a voz mais doce que existe,
Toda meiguice e bondade.
Surges com o halo do Empíreo,
Envolta no véu de neve
Que ondula, sutil e leve,
Como o perfume de um lírio...
Alada e loira, sorrindo,
Pões a mão sobre o meu ombro:
Se eu te olho com mudo assombro
O olhar me volves mais lindo!
Como uma flor que se inclina.
Sentas-te ás bordas do leito
E pousas sobre o meu peito
O alvor da fronte divina!
Recobro aos poucos a calma:
E o meu olhar longamente
Se embebe no teu, que, ardente,
Enche de estrelas minh’alma.
Eu tenho a visão radiante
De uma noite de noivado!
Do teu cabelo ondulado
Sobe um perfume ebriante!
Uma frase de carinho
Com que me encantas e enlevas,
Abre clareiras nas trevas
Do círculo em que caminho.
Quando me falas, parece
Que um anjo, piedoso e loiro,
Embala, num berço d’oiro,
Meu coração, que adormece...
Vieste do céu com certeza!
Baixaste do azul profundo
Para mostrar neste mundo
Uma celeste beleza!
Por isso, à luz do teu riso,
Fico sorrindo e sonhando
Que és um dos anjos do bando
Que voa no Paraíso...