Quando se esgarça o véu das últimas neblinas
— Gaze que o inverno tece em misterioso tear, —
E o ledo gaturamo entoa cavatinas
E os pombos nos beirais arrulham a noivar;
Assim que a estrela d’Alva abre o radiante olhar
E entre nuvens assoma a aurora ao varandim,
— A cigarra, que é a nota errante de um clarim,
Vibrando com alarde as asas harmoniosas,
Chia aqui, chia ali, até que um dia, enfim,
Anuncia a triunfal ressurreição das rosas!
Narcisos e cecéns, papoulas e boninas,
Finda a estação glacial, começam a mesclar
De branco e rosicler o glauco das campinas
Que rolam docemente ondas de um verde mar;
Flora sorrindo põe o flórido colar;
Borboletas azuis com manchas de nanquim,
Ou desmaiados tons de pérola e rubim,
Irrompem não sei donde em chusmas pressurosas
Quando, de surto em surto, o débil volantim,
Anuncia a triunfal ressurreição das rosas!
As torrentes que vão em curvas serpentinas
Rumorejando, vale a fora, a recitar
As baladas de amor que bocas nacarinas
Cantam ao pé da fonte à luz crepuscular;
A nuvem, que se irisa aladamente a voar
De purpura tingindo a cauda de cetim;
A aragem, que dedilha eólio bandolim
Fazendo farfalhar as árvores frondosas,
Tudo, dando expansão a um júbilo sem fim,
Anuncia a triunfal ressurreição das rosas!