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1881–1937

POEMA

Gustavo de Paula Teixeira

Sob o régio dossel do heleno firmamento, Donde os Titãs revéis foram precipitados, Homero, a lira à mão, celebra o valimento Dos argivos heróis por Palas aureolados:

— Canta os feitos de Ajax e Ulisses, a bravura De Aquiles, o esplendor marcial e a formosura Da deusa belatriz de graça peregrina Que brande contra Ílion o gládio que fulmina...

Com dois versos conduz o plaustro da vitória! E cores, luz e sons o semideus combina Para alcançar o beijo olímpico da Glória! Paganini dedilha o quérulo instrumento...

Uma nota suspira e evola-se... Abafados, Vão subindo primeiro os sons num choro lento, Como um flébil planger de corações magoados! Dir-se-ia que o violino uma oração murmura

Para depois clamar! A humana desventura Acorda, soluçando em tremula surdina, E logo sangra numa angustia repentina, Que esmaece e desmaia em queixa merencória...

É uma alma que se entrega à febre que a domina Para alcançar o beijo olímpico da Glória! Sânzio, mudo, a cismar, num embevecimento, Deixa o espírito alar-se a mundos encantados:

E no radiante céu do seu deslumbramento Brilham sideralmente uns olhos adorados! E, no enlevo feliz, traça, com mão segura, Tênues linhas de luz, e em breve, na brancura

Da tela, resplandece, assim como a imagina, Num halo de turquesa, a loira Fornarina Que lhe enche de perfume a vida transitória, E em cujo seio busca inspiração divina

Para alcançar o beijo olímpico da Glória! Fídias contempla o alvor do Paros um momento, E rasga-o: — e logo vão surgindo, arredondados, Contornos feminis de um claro polimento,

Da venusta feição dos mármores sagrados. Saltam lascas do bloco, estala a pedra dura: — Um par de seios mostra a rara cinzelura, Das curvas de Afrodite o encanto predomina,

E as pernas do brancor ondeante da neblina Sustêm do torso grego a perfeição marmórea Com que o gênio imortal as gerações fascina, Para alcançar o beijo olímpico da Glória!

Ardem os camafeus num vivo irisamento. Pelas pátenas d’oiro e hostiários rendilhados Fulge a safira azul, chispa o rubim sangrento, Entre o glauco esplendor dos prásios abrasados...

Cellini, com ardor, faceta opalas, fura Caros metais, e crava o sol em miniatura De um berilo oriental numa custódia fina. De um carvão desengasta a estrela matutina...

Assim, com gemas abre um sulco astral na história, Manejando o buril de ponta adamantina Para alcançar o beijo olímpico da Glória!

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