Quando a tarde com o hálito fumoso Estende pelos vales e montanhas Um turbilhão de túnicas estranhas, De clâmides de tule vaporoso;
E vão fluindo as opalinas fontes Do ventre mastodôntico dos montes, Num soluçar de límpidos violinos; E em coro harpejam as aragens mansas
Como uma chusma de almas de crianças Murmurando segredos cristalinos; E no beiral dos ninhos Gorjeiam passarinhos
Como os doirados sonhos fulgurantes, Os ninhos virginais Que passam pelas almas dos amantes Cantando madrigais:
— Eu vou cismar no artístico terraço, Sob a vasta agonia do sol posto, Vendo as nuvens correrem pelo espaço Como as gotas de pranto por meu rosto!
E penso então na flor dos meus desejos, Na virgem de contornos de alabastro, Cujo sorriso é um astro De célicos lampejos
— Na piedosa Beatriz estremecida Que há de através dos círculos dantescos Do torvo inferno trágico da Vida Num poema de episódios romanescos,
Levar-me, alegre como as borboletas No matinal bailado, Por um fofo caminhos de violetas, À Glória de uma alcova de noivado!
Jamais a vi, mas sei que é bela e casta, Que hei de adorá-la ardentemente... e basta! Seu nome? Não o sei! É um sonho ainda! É uma suave ilusão fascinadora!
Mas sei que é loura e linda, muito linda! Mas sei que é linda e loura, muito loura! Tem quinze anos apenas: é uma palma De quinze rosas cujo olor acalma
Todas as dores. Seu cabelo, solto Em anéis aromáticos, revolto Lhe rola pela espádua alabastrina Donde se evola dos jasmins o cheiro,
E é fino como os fios da neblina E longo como os ramos de um salgueiro... A sua voz de lírica ternura Em que suspira um rouxinol dolente
É melodiosa e cheia de doçura Como um planger de cítara gemente! Seus beijos são de mel; É a mais perfeita criatura humana:
Casta como Susana, Nobre como Raquel! A sua boca é o rubor das rosas, E o róseo coração,
Quente como o verão, É um escrínio de pedras preciosas! Tem da açucena a mística pureza, A candidez de um lírio,
Colo de cisne, gestos de princesa E a pulcritude das visões do Empíreo. A redondez das pomas recatadas, O talhe da cintura de Afrodite
E as régias mãos nevadas São o último limite Da perfeição sonhada pela mente Enfebrecida e ardente
De visionário artista Que planeja uma rútila conquista! Corpo de estátua! Joia que irradia! Urna de essências! Taça de ambrosia!
Hóstia de beijos! Vaso de primores! Buquê de mimos, de estelares lumes, De pérolas e flores, De auroras e perfumes!...
Onde estará aquela que procuro, Que um dia será minha, O liz nivoso e puro, Frágil como a andorinha,
Que embalde chamo, súplice, ajoelhado, E em cujo seio níveo e perfumado Como um craveiro em flor; Repousarei como num céu aberto:
— Qual sôfrego viajor Que, na aridez de um áspero deserto, Perseguisse lucífera miragem — Um enxame de brilhos deslumbrantes! —
E no meio da tórrida paragem Encontrasse um castelo de diamantes! Quando verei o arcanjo estremecido Que o coração espera amargurado,
De lágrimas vestido, De espinhos coroado! Ela há de vir, a lúcida quimera... Guardai, ó Primavera,
Canções e flores para o meu noivado!
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