Só, um enlevo, entre as aragens mansas, Da vida esqueço o félico amargume, Sob um ipê, que, sacudindo as franças, Me festeja com bênçãos de perfume.
Perto, um pássaro estranho, arcoirizado, Preludiando amorosas cantilenas, Pompeia como um príncipe encantado A riqueza cromática das penas.
Sob uma umbrosa cúpula de folhas, Alta como uma abóbada de igreja, Entre flocosas florações de bolhas, Flui opálea corrente que espumeja;
E abaixo, entre lisins, cascavelando, Enruga a prata no ébano da rocha, Depois num salto arroja-se, bufando, E em corimbos de espumas desabrocha.
De pronto um subitâneo reboliço Faz ondular a relva que se dobra, E, pondo em fuga um melro assustadiço, Surde, coleando, uma erradia cobra.
É uma cobra coral de linda escama Precintada de púrpura e de treva; Ao ver seus olhos — dous rubins em chama — Das borboletas voa esparsa a leva.
De um arrozal maduro o oceano loiro, Que o vento agita e o sol a pino escalda, E harmoniosas ondulâncias d’oiro, Vai-se quebrar num dique de esmeralda...
Os colibris de plúmulas cambiantes — Solto colar de pedras preciosas, — De surto em surto, em pares doudejantes, Andam com o bico ensanguentando as rosas...
Pelas copas em flor, entre perfumes De manacás, em variações bizarras, Abafando das pombas os queixumes, Tocam flautins estrídulas cigarras.
Com seus resmungos bárbaros me assustam Besoiros de bronzeados capacetes, E por capões de mato embarafustam, Lavando à frente os dous hostis floretes.
O sol com os fulvos raios colorantes Pincela a tez sem mácula das flores, Numa gama de cores deslumbrantes, Que humilha a fantasia dos pintores.
A orquestração dos pássaros me anima E insufla um sangue novo em minhas veias, E componho a cantar, de rima em rima, Poemas e poemas de encantar sereias!
Dentro de um sonho o coração se aquieta, Sinto-me bem, sem tédio, sem fadiga, E murmuro num êxtase de poeta: — “Bendita sejas, Natureza amiga!”
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