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1881–1937

MILAGRE

Gustavo de Paula Teixeira

Em meu batel de velas cor de arminho E flâmulas de seda do Levante, Eu me perdi no pélago marinho, Numa sinistra noite fuzilante.

No plúmbeo espaço, onde o trovão rugia, Cobrejavam relâmpagos trementes, E, abrindo a guela, o fero mar bramia, Dos escolhos mostrando os sérreos dentes.

Asas pandas, em trépido balouço, O meu batel pairava, solto e leve, Sobre a espúmea ondulância do marouço, Como um gigânteo pássaro de neve.

Então eu quis, semianime de susto, Chamar a Virgem, mãe do Lírio loiro, E murmurei teu nome doce e augusto, Que é o sacro harpejo de uma lira d’oiro...

Nisto — oh! milagre! — emudeceu o vento, Afastara-se as ondas marulhosas, E flamejou escampo o firmamento Num incêndio de pedras preciosas!

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