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1881–1937

FRÍNIA

Gustavo de Paula Teixeira

É uma dócil menina carinhosa — Um assombro de estética divina! — De uma sadia carnação de rosa, Radiosamente loira e alabastrina!

É tão ingênua como a borboleta Que anda a esvoaçar pelas manhãs de gala, Ora em redor dos tufos de violeta, Ora entre as moitas de cecéns de opala.

Quando ela fala, a sua voz ridente, De um timbre docemente cristalino, É tão maviosa e musical que a gente Pensa escutar as notas de um violino...

Se alguém a visse num altar, na igreja, Julgaria estar vendo a virgem Santa. A estrela do pastor pirilampeja Em seu riso que as pérolas suplanta.

Quando — aos primeiros raios loirejantes Do sol que rasga a teia das neblinas — Ela sai a passeio, as orquestrantes Patativas entoam cavatinas.

Nem uma abelha a melindrar se atreve Essa visão seráfica do Empíreo, Alva, mais alva do que a própria neve, Pura, mais pura do que o próprio lírio!

Agita-se a frondagem do arvoredo Num jubiloso frêmito de glória, E as flores, murmurando-lhe um segredo, Beijam-lhe a mão acetinada e flórea.

Segue-a por tudo um coro de gorjeios. No vale os melros — menestréis audazes, — Rendilhando adoráveis galanteios, Oferecem-lhe ramos de lilases.

Osculam-na as falenas furta-cores, Causando aos cravos pungitivo ciúme. Quando ela foge do vergel, as flores Soltam fundos suspiros de perfume...

É muito meiga e tímida. Se um ruído Escuta, corre, pávida, ofegante, Rasgando nas roseiras o vestido, Mais veloz do que a célere Atalante.

Quando ela, o azúleo ambiente ensandalando, Pega em dous leques, doudejante e lesta, Tenho medo que, as asas tatalando, Voe e se perca pelo azul em festa!

É um gosto vê-la cheia de ternura Amamentando uma boneca eslava De uma expressão de angélica doçura, Olhos cerúleos, cabeleira flava.

Fala-lhe a rir com a boca muito rente, Ao lácteo seio aperta-a com delírio, E beija-lhe a carinha gracilmente... É a estrela d’Alva acalentando um lírio!

Quando os meus versos, num enlevo, canta, É um rouxinol fazendo a sua prece... Às vezes penso: — “Esta menina é a santa Que num andor de rosas me aparece!”

Chamei-lhe “minha noiva” certo dia: Ela escondeu as faces esbraseadas... A sua alma é uma alegre cotovia Que anda a ensaiar suavíssimas baladas!

Por essa Flor que vem desabrochando Cheia do casto aroma da inocência, Irei a minha lira dedilhando Através das batalhas da existência...

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