Um duplo e grande amor me abrasa e me alucina E me faz suspirar por férvidos abraços: Adoro uma Frinéia e uma gentil menina, E tenho o coração partido em doUs pedaços!
Quando vejo a Raquel quero ver outra logo, E a que está longe chamo em delirantes brados, E não posso romper as cadeias de fogo Que em forças iguais me prendem de dois lados.
Como um náufrago, luto entre parcéis, sem norte, E entre os dois pólos ardo em padecer eterno! Uma é a visão da Vida, outra é a visão da Morte! Uma desceu do Céu, outra subiu do Inferno!
Se pela mão direita o arcanjo me segura, Logo o gênio do Mal por outra mão me pega, E minh’alma, a tremer, fica na noite escura, Vacilando, a tatear, como uma pomba cega!
Uma é a dócil Beatriz a cujos pés eu caio, Outra a diva pagã, a voluptuosa hetere; O riso de uma é um astro, o riso de outra é um raio: Uma ilumina e aquece, outra atordoa e fere.
Uma escuta o estridor da borrascosa tromba Pedindo à Virgem Mãe que a ampare por piedade, Outra afronta o ciclone e dos perigos zomba Com sorrisos triunfais de ardende claridade.
A primeira aprecia as harpas, os violinos, A lira, o cravo, o piano e a cítara sonora, Os enxames de sons etéreos, cristalinos, Que parecem sair da boca de uma aurora!
Aprecia as canções, as líricas sonatas, Que são torrentes de ais de uma alma lacrimosa, As vibrações sutis, árias, mandolinatas, Palestrina, Môzar, Belini e Cimarosa.
A segunda prefere as músicas de guerra, A fanfarra marcial de bélicos fragores, A trombeta, o clarim, o pífano que berra, O címbalo, o atabale, os sistros e os tambores;
Apraz-lhe mais ouvir as marchas militares, Os rufos de um adufe e os sons das castanholas Que estridulosamente, em chocalhantes pares, Cascavelam febris nas mãos das espanholas.
Os olhos de uma têm a luminosidade De uma aurora de abril cheia de pombas mansas, São quietos lagos onde em viva alacridade Em batéis de cristas passeiam esperanças...
Os olhos de outra, sob os lúgubres presságios Das sobrancelhas, são Estiges pavorosas Feitas para colher, na angústia dos naufrágios, Dos sonhos juvenis as lindas naus pomposas!
Uma adora os jasmins de acariciante aroma, As violetas, que são o seu maior tesoiro, E os lírios cor de luz que prende à flava coma — Borboletas dormindo em uma nuvem d’oiro...
Outra — a dália, a papoula, a rosa que embalsama Todo um templo, ostentando as graças coloridas, E os cravos purpurais de pétalas de chama, Que são os corações das mortas Margaridas.
De uma o cabelo crespo é uma aloirada sombra, Outra nas tranças tem os noturnais negrores. O colo da primeira é uma cheirosa alfombra, O colo da segunda é um espinhal com flores.
A primeira é a criança ingênua e alabastrina, Um sonho de Murilo, um tipo de aquarela, A vaporosa Ofélia, a castelã franzina, Gracilmente lirial e lirialmente bela!
A segunda é uma flor carnívora e robusta Que seduz com o perfume e com os espinhos mata, A suntuosa Laís de uma lama de Locusta, A Pompéia fatal de instintos de pirata.
Uma no coração precioso tem miríades De estrelas e o pudor da bíblica Susana, Outra — a crueza atroz da bárbara Herodíades Que fez calar de João a língua soberana.
Uma é pudica e tem um ar de quem padece, Outra — de uma amazona o arrojo formidando. A voz de uma recorda uma serena prece, A voz de outra recorda um grito de comando.
Uma faz orações, outra solta blasfêmias, Uma atrai com a bondade, outra com as formas nuas. Os seios de uma são duas estrelas gêmeas, Os seios de outra são duas marfíneas luas...
Assim, vivo a lutar sem calma, a todo instante, Com este duplo amor, numa ânsia sem limite, Entre a meiga Vestal e a pérfida Bacante, Entre a Virgem Maria e Vênus Afrodite!
Cookies on Poetry Cove