A noite é fria, muito fria, É fria e triste... A voz do vento É cheia de melancolia. Gris, lacrimeja o firmamento.
Que noite! É o Horto da Agonia! De longe vem, fugaz e fino, O olor de um cravo... O frio corta. No alto da curva do destino
A lua beija a noite morta... Na voz do vento dobra um sino... E enquanto o vento plange fora E acorda o ninho um calefrio,
Dentro da noite sem aurora Tu jazes frio, frio, frio... Meu coração, sangrando, chora! Em funda paz dorme a cidade,
Fechadas portas e janelas. Da lua à tênue claridade Rolam as folhas amarelas... E eu penso em ti com que saudade!
Branqueja ao longe o cemitério — Feral jardim de cruzes pretas Onde não se ouve um riso etéreo, Onde não brincam borboletas...
Chora o luar... Que céu funéreo! Não te pranteou de um sino o dobre No escárnio dessa tarde de ouro, Nem jaspe ou mármore recobre
O teu esquife de anjo louro. Só flores, só, tiveste, pobre! Mas, na urna estreita que te encerra, Não estás só! Toda a ternura,
Minh’alma, que entre sombras erra, Vai-te embalar em noite escura, Vai-te aquecer dentro da terra! Da sorte o sopro álgido e tredo
Gelou-te as mãos, fechou-te os olhos. Teu berço, azul como um segredo De amor, partiu-se em mar de escolhos. Antes de um ano! Era tão cedo!
E eras tão belo! E eras tão forte! E já sabias rir, contente, Abrindo os braços num transporte Para cingir-me docemente!
E suportaste a dor da morte! Que graça tinhas! Com que encanto Gestos fazia a mão querida! Eu te adorava tanto, tanto!
Eras o enlevo desta vida Que naufragou num mar de pranto! Em vez do tépido conforto De um seio e do calor materno,
Tens hoje, no silêncio do Horto, As frias lágrimas do inverno! E Para todo o sempre és morto! Mas, num altar onde alvorada
Não luz, por ti, que és mudo, exangue, Sempre há de arder, da dor brotada, Sempre! uma lágrima de sangue, Como uma lâmpada sagrada!...
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