Em frente à escola paro, às vezes, por acaso, E, lançando um curioso olhar pela janela, Descubro (pobre flor a fenecer num vaso!) Um busto de menina excelsamente bela.
Na mão o livro aberto, a fronte baixa, estuda Exalando um discreto aroma de violeta. E o dia que não passa! E o quadro que não muda! Que sombria prisão para uma borboleta!
Como aborrece a escola! É sempre a mesma cousa: Sempre o mesmo rumor de vozes em surdina, Na mesma estreita sala a mesma negra lousa E o horror da preleção que nunca mais termina!
E que festa há por fora! Um pintassilgo canta E é tal a melodia estranha do seu hino Que toda de cristal parece a áurea garganta Que de gotas de luz faz notas de violino!
E a prisioneira sonha... Inveja a livre pomba Que, abrindo como um leque as asas rendilhadas, Se perde na amplitude e das distâncias zomba, Na cristalinidade azul das alvoradas.
Distrai-se a ver o sol que a pino resplandece E acende nos vitrais gemíferas miragens, E defronte o jardim virente, que floresce, Numa palpitação contínua de folhagens.
Não cessa de adejar sua alma de andorinha. E ela presa! Que tédio horrível desde as onze! E tão breve o recreio e o tempo não caminha! Parece que Saturno anda com pés de bronze!...
Depois pega na agulha e borda mais de uma hora Das suas alvas mãos brotam vermelhas flores. Nunca nas nuvens d’oiro a rósea mão da aurora Com seus fios de luz bordou iguais primores!
E que alegria quando a injusta pena é finda! Das crianças em meio às chusmas pressurosas Sai de branco, irradiando, a sua imagem linda Como um lírio de jaspe entre um florir de rosas!
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