Dentro da noite, a sombra de Aliguiere
Passa rezando... Choram as neblinas.
Fúnebre plange como um miserere
O sussurro das velhas casuarinas.
Só no meu leito, ouvindo a voz do inverno,
Que guaia sob a abóbada de chumbo,
Rolo nos sete círculos do inferno
Desta infrene paixão de que sucumbo!
Que desespero insano me tortura!
Que pungente saudade me crucia!
Sem teus olhares — como a noite é escura!
Sem teus abraços — como a noite é fria!
Que sorte hedionda, que fadário infando
Me afasta dos teus braços, do teu seio?
No céu, um dia, adormeci sonhando,
Para acordar na treva em que pranteio!
A todo instante, pálido, suspiro
Por essas gregas formas de alabastro,
Pelo tempo em que este álgido retiro
Se enchia todo do fulgor de um astro!
Não sonha mais com os ecos dos teus passos
Esta alma que deixaste quase louca...
E tantas vezes te apertei nos braços!
E tantas vezes te beijei na boca!
Foi-se o bando das minhas esperanças.
Não conto mais, num beijo, como outrora,
Soltando os fios d’oiro dessas tranças,
Envolver-te na túnica da aurora!
E enquanto a noite, gélida, caminha,
Teu nome invoco em lágrimas desfeito,
E, ao pensar que não mais tu serás minha,
Com as próprias unhas dilacero o peito!