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1881–1937

A UM CONQUISTADOR

Gustavo de Paula Teixeira

Ó coração de bronze, ó coração de hiena, Irmão de Átila e Nero — o bárbaro e o incendiário — Que transformais a Terra em uma vasta arena Com o pulso de um ciclope e a fúria de um corsário,

Deixai florir a Paz, que Deus assim o ordena! Basta de horrores, basta, abutre sanguinário! É horrível este quadro: — Um campo de batalha. A toques de clarins troa a fuzilaria

Seguida do clamor sinistro da metralha Que dizima esquadrões, até que a noite fria, Vendo morrer titãs que não terão mortalha, Para cobri-los, abre a túnica sombria!

Partem numa esfuziada as pontiagudas balas Furando corações, rompendo carnes quentes; Refulgem lanças mais brilhantes do que opalas No insano marulhar das cóleras frementes,

E, bêbadas de sangue, as bem dispostas alas Envolvem o inimigo em roscas de serpentes. Enquanto parte um crânio o gládio de um Mavorte, Fulmínea bala ultriz vara um pulmão. O embate

É cada vez mais fero, é cada vez mais forte. Lembra o circo de Roma a arena do combate! E, convivas brutais do bacanal da Morte, Com tigrino furor cada legião se bate!

Veem-se atletas no pó, nos últimos arrancos, Procurando vibrar o golpe derradeiro. O canhão, que ribomba e roda aos solavancos, Dos estilhaços cospe o fúlvido chuveiro,

E, bolhando, a manar dos seios e dos flancos Dos soldados, o sangue ensopa o campo inteiro. Nitrem caracolando indômitos cavalos As patas atolando em poças purpurinas;

Outros com fúria tal que já não há domá-los, Exalando um vapor candente das narinas, Voam como dragões saltando fojos, valos, Levando erguidas como uma bandeira as crinas!

O morteiro escancara a goela flamejante E — num crebro estrugir de brônzeas gargalhadas Capazes de aterrar homérico gigante, — Clangora vomitando as bombas inflamadas,

E, — como um bafo ruivo, — o fumo espiralante, Resfolegando, expele em nuvens condensadas. Lusbélico, sabá! Dantesco pandemônio! A pólvora explodindo espalha nuvens pretas.

Passeia a Morte a rir de braços com o Demônio... E entre as cintilações das brancas baionetas Estridulam febris, num júbilo gorgôneo, Tambores e clarins, fanfarras e trombetas!

Dos braços voam mãos como bizarras flores Arrancadas do hastil. Corcéis pisam entranhas De moribundos já cobertos de livores, De heróis a estertorar em convulsões estranhas!

A orquestra funeral de armíssonos clangores Faz tremer de pavor as águias das montanhas! Finda a batalha. Em ronda, os execráveis corvos Descem a desolhar mortos e agonizantes

Que se estorcem no horror dos desesperos torvos, Com as hirtas mãos cobrindo os lívidos semblantes, — Enquanto vós, falcão, sem peias, sem estorvos, Rejubilais envolto em púrpuras brilhantes!

As vossas mãos cruéis, as vossas mãos ferinas São garras de Satã! A vossa trajetória E assinalada por devastações e ruínas. Vede: gotejam sangue os louros da vitória!

As almas cor da aurora, as almas cristalinas Desmaiam ao clarão fatal da vossa glória! No lar, que era um jardim de alegrias doiradas, Cheio de colibris e borboletas mansas,

Onde o amor arrulhava idílicas baladas E eram cravos a rir as bocas das crianças, — Fizeste penetrar a Morte às gargalhadas Por entre um refulgir de espadas e de lanças!

Contemplai um momento as virgens lacrimosas Que no auge do pesar que o seio lhes apua Levantam para o céu as frontes angustiosas, Enquanto o coração crucificado estua!

Nessas faces de neve onde floriam rosas Se estende a palidez ofélica da lua! Como contrista ver as cândidas meninas Sem o amparo, ó broquel dos paternais desvelos,

Expostas da luxúria às garras libertinas! Misérrimas! Só têm, embora caiam gelos, Para a nudez velar das formas peregrinas A nuvem aromal e fofa dos cabelos!...

Sobre essa fronte o olhar do Criador dardeja Um duro raio hostil de um brilho funerário. Nada poupa esse gládio argênteo que lampeja: Nem a cruz em que sofre o Mártir do Calvário!

Erguei os olhos, vede: O sol, que relampeja, É um coração que sangra envolto num sudário! Searas, jardins em flor de aroma rescendente, Templos de Buda e Cristo e de Mafoma e Brahma,

Pompas esculturais de mármore luzente, Joias de arte que a luz, que é um beijo de astro, inflama — Tudo, tudo destruís inexoravelmente A tiros de canhão, a vômitos de chama!

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