No pináculo do monte Onde a tempestade rincha, Brota escassa e tênue fonte De sáxea frincha.
Rompe do adito da penha Por furo aberto a capricho, E, súbito, se despenha Em um esguicho.
Salta e foge num arrulo Num chão onde a relva medra, E desce, de pulo em pulo, De pedra em pedra.
Serpeja entre as móbeis pêndulas Dos intrincados cipós, E passa entre as filipêndulas Destra e veloz.
Entre calhaus, palpitando, Susta a carreira, escorrega, E vai tateando... tacteando... Como uma cega!
Logo após a argêntea fita, Encosta abaixo, desdobra, E, rebolando, se agita Como uma cobra.
Pelos túneis de verdura Tirita de luz à míngua, E sai da garganta escura Como uma língua...
Um periquito da serra, Quando mais flameja o sol, Na corrente o bico enterra Como um anzol.
Bebe adiante um tico-tico; No ponto em que mais borbulha O beija-flor crava o bico Como uma agulha.
E a equórea serpe, que vaga Pela ravina, de rojo, Suspira de fraga em fraga, De fojo em fojo.
Chega ao cimo de uma rocha Por entre palmas de avenca: Salta, em lírios desabrocha E se despenca...
Arrebanha afluentes níveos — Mansas cobras de luar Que encontra pelos declívios A tiritar.
Engrossa tanto na viagem Que a água de um salto não vingo: Fora a que bebe a folhagem De pingo em pingo.
Sérios perigos arrosta Como um herói frio e calmo, E conquista a longa encosta De palmo em palmo.
Ao vale chega. Que festa! Toda se arrufa de glória! Foi a viagem na floresta Uma vitória!
Detém-se ao pé de uma choça, E, cheia de um santo amor, Oferta uma grande poça Ao morador.
No seio hialino, claro, Esconde uma alma de Buda: Até a flor sem amparo A erguer-se ajuda.
Posto que a turvem bastante, Não leva sombras de mágoa. Jamais negou ao viandante Um copo de água!
Na marcha morosa e tarda Pisam-lhe o dorso espelhento Os bois: inda assim, não guarda Ressentimento.
Salvo em galeras de folhas Tribos de insetos ruins, E, alegre, floresce em bolhas Que são jasmins!
Entra num campo: congraça As borboletas de cores Diversas e ansiosa, passa Colhendo flores.
Aqui, ali, uma rosa, Que em perfumes se desmancha, Brinca nas ondas, gloriosa Como uma lancha!
Um sinceiro de alta copa A frouxa cauda de sombra Em suas águas ensopa, Rente a uma alfombra.
Nas ôndulas encrespadas, Da pedraria entre os vãos, As árvores debruçadas Lavam as mãos...
Ora reflete a esmeralda De um tuim, ora um galho arreda E o espúmeo pendão desfralda De queda em queda.
Dança um pouco, e estuga o passo, De neve as margens salpica, E lança-se, espaço a espaço, De bica em bica.
Quando o álveo se torna estreito, Solapa e alue os barrancos, E espreguiça-se no leito De seixos brancos...
E toma alento, descansa Um só minuto, porém: Pois cai num pendor, e avança De novo, além!
E sem tino, atropelada, Ladeira abaixo, tropeça, E em desalinho, arrepiada, Se ergue depressa.
Vista de longe, parece Toda vestida de plumas: Pois, cheia de flocos, desce Suando espumas!
Galopa, agitando ao vento A undante crina de opala. Às vezes, no chão pedrento, Os pés entala...
Corre, corre, sem descanço, Riçada, trêmula, audaz, Até que, enfim, num remanso Encontra a paz.
Num tanque em círculo, enorme, De face de porcelana, Deita-se, aninha-se e dorme Uma semana.
Meninas brancas e nuas, De pernas jáspeas, redondas, Se banham, sorrindo, em suas Macias ondas.
Um ganso, que se retrata No plácido ancoradoiro, Quebra-lhe o espelho de prata Com os remos d’oiro...
Mas, findo o sono, fremindo, De novo põe-se a viajar De passo em passo, seguindo Rumo ao mar...
Cookies on Poetry Cove