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1881–1937

A TEMPESTADE

Gustavo de Paula Teixeira

Conglomeradas no alto, a combinar o instante Em que à terra darão o ataque, as nuvens pretas Caminham pelo espaço em marcha balouçante, Como um bando invasor que avança triunfante

Entre rolos de pó e toques de cornetas. Brame longinquamente a voz estertorosa Do trovão assustando a Natureza em calma. O colibri suplica um agasalho á rosa

Que o aninha, entrefechando as pétalas, piedosa, No casto seio como um sonho dentro da alma. Relâmpagos febris de flâmea cauda, ariscos, Dão punhaladas d’oiro... Em súbitos desmaios.

Num fúlvido painel de traços e de riscos, Cobrejam pelo céu exames de coriscos, E estoirazes bulcões vomitam fulvos raios... Tamborilando, grosso, o temporal desaba,

Vergastando de rijo os visos da montanha; O coqueiral sacode as palmas verdes na aba Do monte, onde, á feição de um crânio, a terra acaba, E onde o inverno desdobra a neblinal bretanha.

E o furacão ribomba. As folhas do arvoredo Despencam-se bailando em vôo trepidante. Os pombos nos casais escondem-se com medo, Eajoelham-se a rezar as flores em segredo

Pelo espírito azul de um melro agonizante! A floresta se estorce em convulsões de morte Num macabro clamor de monstros enjaulados; E os ventos que a bufar, com pulso hercúleo e forte,

Espancam dos chorões a lúrida coorte, — São maltas de satãs malhando condenados... A fonte musical do píncaro da serra, Que trazia no seio um rouxinol cantando,

Borbulha, e ferve, e espuma, e corcoveia, e berra, Impelindo, os calhaus que do álveo desenterra Com a fúria de um corcel que foge relinchando. Abrindo socavões, cavando algares, rugem,

Como rios de sangue, as crespas enxurradas; Tomados de pavor, os bois no campo mugem Quando os roucos trovões raucíssonos estrugem Num clangor de canhão varrendo barricadas!

As choças e os palhais, no embate fragoroso, Tombam entre um clamor de almas de mágoa cheias. Os pinheiros senis de aspecto doloroso, Erguendo espectralmente o galhame nodoso,

Semelham colossais espinhas de baleias... Das enseadas deixando o bonançoso leito, Onde a idéia tenaz de liberdade incuba, O grande Mar, que embala as velhas naus no peito,

Com urros de montanha, em macários desfeito, Leoninamente eriça a espumarenta juba! Rilhando farelhões e solapando fragas, Busca tomar de assalto os condoreiros montes:

E, uivando maldições, vociferando pragas, Transpõe a praia e leva o assombro em suas vagas, Num dantesco tropel de ruivos mastodontes! Blindados Leviatãs que arfam com as brônzeas cargas

E sulcam bamboleando as vastidões supremas; Couraçados — dragões de asas triunfais e largas, — Tudo — o Mar, vomitando elétricas descargas, Estrinca em suas mãos como um colar de gemas!

Destroços de galeões — maruja, velas, mastros, Tudo no saque pilha a neptuniana tropa. Tanto estrondo o tufão faz a correr de rastros Como se Deus com o pé brilhante como os astros

De encontro ao Novo Mundo arremessasse a Europa! E eu, ouvindo o estridor do vendaval, que estala, Fico, triste, a pensar nas frágeis borboletas! E minh’alma infeliz, que foi de Buda, exala

Um ai de compaixão dos lírios cor de opala Que se desfolham como as ilusões dos poetas!...

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