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1881–1937

A SAUDADE

Gustavo de Paula Teixeira

No discreto jardim, entre florais caçoulas, Fitando o Ocaso, que era um campo de papoulas, Eu meditava ao pé do repuxo orvalhante Que faz de um pingo de água um rútilo diamante,

Arrancando do seio um lamento dorido Como de uma harpa d’oiro um músico gemido... Sangrando de tristeza, em lágrimas boiando, Meu coração pulsava exulcerado quando

Descubro uma mulher vestida de violetas Que exalam, entreabrindo as roxas caçoletas, Um perfume sutil de sonhos desfolhados... São astros a chorar seus olhos angustiados,

Seus olhos tristes como as horas de agonia! Tem ares de Belquisse e feições de Maria; O seu leve rumor, que é mágica surdina, Parece o sussurrar da aragem vespertina

Brincando entre jasmins... Contemplo-a embevecido. Nisto a excelsa visão, num harmonioso ruído, Pousa em meu ombro, a mão de nítido alabastro Onde chispam anéis de fulvos brilhos de astros,

E muda, — como quem, num dia de amargura, Coloca uma coroa em uma sepultura, — Desata sobre mim o seu cabelo loiro — “Quem és tu? — perguntei: — arcanjo, deusa ou fada?

“De que azúlea mansão, de que auroral morada “Vieste? Dize, visão talvez do céu descida “Para levar-me à astral Jerusalém querida! — “Eu sou a divindade a que tu rendes culto,

“— Volveu-me a aparição: — do teu olhar me oculto “Para não avivar dessa alma ardente as dores “— Um ramo que perdeu inda em botão as flores... “Sou a deusa do altar cujas imagens belas

“São aquelas que amaste, as cândidas donzelas “Que passaram por ti cobrindo-te de rosas, “Fazendo-te sonhar cousas maravilhosas: “Cidades de cristal de atênica beleza,

“Castelos d’oiro e prata e pórfiro e turquesa “Por diáfanos vitrais bebendo claridade “E desafiando o Azul com seus torreões de jade! “São aquelas que outrora, em versos rendilhados,

“Vestiste de oiropéis, de púrpura e brocados, “De espúmeos brocatéis, de arcoirisadas lhamas, “De escumilhas brumais e vaporosas tramas, “E cujo ebúrneo colo, — alvo como a inocência

“De um bogari que encerra uma ânfora de olência, — “Cobriste de rocais de pérolas radiantes, “— Dessas que saem da alma em chuvas cintilantes... “Quando na solidão, cheio de desconforto,

“Evocas as visões de um grande sonho morto, “Eu faço desfilar pela tua alma em fora “As humanas cecéns de voz de mel, sonora, “Formas de jaspe, olhar de seda, boca breve,

“Dos seios a pompear o lindo par de neve! “Brancos lírios do céu! Crianças adoráveis! “Auroras virginais de dias inefáveis! “À hora em que se fecha o malmequer do Poente,

“E as sombras vesperais vão silenciosamente “Subindo em ronda alada a ravina dos montes “Donde deriva o pranto opálico das fontes, “E em que a mágoa abemola o canto dos pastores

“E palpita em segredo o coração das flores; “À hora em que o planger das virações nas franças “Tem a suave inflexão das vozes das crianças, “E entre finos frouxéis, na tepidez do ninho,

“Balbucia a oração da tarde o passarinho; “Ness’hora de um ferir de seta cariciosa “Em que a primeira estrela, ingênua e vergonhosa, “Aparece a tremer, baixando o olhar doirado,

“Como a noiva ao entrar na alcova do noivado: “— Eu te levo ao meu templo eternamente aberto “Onde de encontro ao seio imáculo te aperto, “Mostrando-te uma a uma as formosas imagens

“Que te enlevaram como um brilho de miragens, “Deixando-te a gemer no Gólgota da Vida, “Vendo esfumar-se ao longo a Terra Prometida!... Com passos de veludo a Noite vinha. Ardia

Na amplitude do céu esparsa pedraria. E com o estema irial de branda claridade O vulto feminil da mística Saudade, Que em rimas cristaliza as lágrimas dos poetas,

Afastou-se deixando um rastro de violetas...

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