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1881–1937

A HORA DA MORTE

Gustavo de Paula Teixeira

Em breve eu parto para outros mundos! Que desconforto! Que desconforto! Daqui a instantes (talvez segundos!) Estarei morto!

Meus olhos choram fios de sangue, Cavos gemidos truncam-me a voz... Abutres bicam meu corpo exangue Com fúria atroz!

Sussurram vozes... Escuto passos Lentos... É a morte que me procura Para levar-me nos hirtos braços À sepultura!

Macabramente batem martelos... Amplos sudários tremulam no ar... Surgem sinistros polichinelos A gargalhar!

Certo ao inferno sou condenado (Ai de minh’alma!) por ter, não poucas Vezes, de beijos ensanguentado Cheirosas bocas!

No quintalejo chorões farfalham, Descabelados, beijando o pó; Álamos fremem, cedros ramalham... Agouros só!

Daquela que a alma sem fé me engoiva Lembro-me e o pranto meu rosto orvalha! Ah! quem me dera seu véu de noiva Para mortalha!

Nenhum amigo (tantos eu tinha!) Me vale neste lance cruel! Hei de sozinho sorver a minha Taça de fel!

Visões me assaltam... Estranha gente Ri dos meus gestos desesperados... Ao longe, um sino, plangentemente, Dobra a finados...

Já que não posso fugir da Morte (Já vai gelando meu coração!) Quero que seja bem largo e forte O meu caixão!

Rondam fantasmas com ar funéreo... As trevas descem, a luz me foje... Sei que no fundo de um cemitério Vou dormir hoje!

Hão de deixar-me no Campo Santo, Num abandono desolador, Sem epitáfio, sem cruz, sem pranto, Sem uma flor!

Torvo coveiro me espera rindo, Cantarolando sombria trova. Já ouço os ecos da enxada abrindo A minha cova...

Soltam corujas pios insanos... Ninguém na terra chora por mim... Ah! como é triste na flor dos anos Morrer assim!

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