Pede licença, ao Senhor, que no nome a graça traz: mas ele como sagaz o aconselha com primor:
diz-lhe, que fora melhor esta contenda escusar; porém o Mancebo alvar fiado em ser cavaleiro,
e fiado em ter dinheiro não quis o pacto aceitar. Porque se não vence não (dizia o Moço Magnata)
nem por ouro, nem por prata o seu sangue de Aragão: e vendo o Senhor D. João, que se a licença negava,
a André Cavalo ultrajava, pois podiam presumir, se ao campo o não vissem ir, que o dinheiro lhe faltava:
Lhe disse, que não só três (se corressem) mil cruzados, senão que depositados tinha André Cavalo dez:
mas o moço Aragonês vendo esta resolução, por temer a perdição, a que punha o seu dinheiro,
toma conselho primeiro co reverendo Frisão. O Padre, que sem estudo as Leis entende civis,
e com manhosos ardis obra mal, e sabe tudo: lhe diria mui sisudo com aspecto venerando,
rindo-se de quando em quando, que assim seus enganos lavra, não se lhe dê da palavra, diga, que estava zombando.
Assim foi, que o desafio veio a parar em burrada, que a palavra não val nada, se na ocasião falta o brio:
e para que com desvio não fossem mais inimigos, evitando alguns perigos em boa paz os chamou
o General, e tratou, de que fossem muito amigos. Depois das pazes enfim lhes pediu, que cavalgassem,
e um par de lanças tirassem cada qual em seu rocim: ele lhe disse, que sim, e de improviso avisou
ao Irmão, que não tardou em trazer-lhe bons arreios, cavalos, selas, e freios, e com eles se embarcou.
Num dia dos derradeiros ao Terreiro os dous chegaram, e ambos se separaram, logo dos mais cavaleiros:
cuidam, que são os primeiros Fidalgos, que a terra tem, e néscios não antevêem, que diz o Povo, e não erra,
se são Fidalgos da terra, na terra há outros também. Empinou-se-lhes a ruça, e de quatro companheiros
sem mais outros cavaleiros fizeram a escaramuça: o General se debruça para metê-los bem nela
na janela com cautela, porém usou de revoltas, porque metendo-os nas voltas, mandou cerrar a janela.
A escaramuça acabada fizeram a cortesia, e todo o Povo se ria vendo a janela fechada:
nas voltas não viram nada, que com notável trabalho no ay hombre cuerdo a cavalo, porém depois que acabaram,
e o General não acharam, ficaram de vinha-d’alhos. Cos rostos descoloridos, desesperados agora
iam por dentro, e por fora da própria cor dos vestidos: os que são desvanecidos, e de néscia presunção
presumem mais, do que são, emendem seus pensamentos, que para seus desalentos e vivo o Senhor D. João.
Não presumam, porque têm, que são mais que os pobres nobres, pois há muitos homens pobres, mui bem nascidos também:
ao pequeno não convém por pequeno desprezar, que se este quiser falar, achar pode algum defeito
que nenhum há tão perfeito, em quem se não pode achar. Seguia-se um cavaleiro ao famoso André Cavalo,
que levou sem intervalo de cada golpe um carneiro: também foi aventureiro de um prêmio: mas com defeito
dava ao corpo um grande jeito, e ficou passado, e absorto, de que fosse ao prêmio torto, e o prêmio a outro direito.
Ao famoso Brás Rabelo razão é de mestre o apode, que dar dias santos pode nesta arte, ao que for mais belo:
e se com louco desvelo, do que digo, algum se abrasa, escute a razão, que é rasa, e verá, se faz espantos,
que dar possa os dias santos, quem tem Domingos de casa. Nas lanças, que pôs mui bem, teve de prêmios ganança,
e certo, que pela Lança não o há de vencer ninguém: dos cavaleiros, que tem modernos hoje a Bahia,
leva Brás a primazia, porque não há nesta praça, quem se ponha com mais graça, fortaleza, e bizarria.
Também aquela fatal emulação de Mavorte, para os inimigos forte para os amigos ,
aplauso merece igual, pois nesta cavalaria, se aos mestres não excedia, por mais antigos na arte,
aos Modernos desta parte ele leva a primazia. Também no Machado falo, que e razão por ele acuda,
pois sempre ao cavalo ajuda, mas não o ajuda o cavalo: inda assim posso louvá-lo, dando-lhe vários apodos,
porque conheço em seus modos, e mui bem posso afirmar, que nisto de cavalgar leva vantagens a todos.
Em mau cavalo corria, mas um prêmio mereceu; veja-se, quem o perdeu, que cavaleiro seria:
aposto, que alguém diria, vendo, que as carreiras passa sem fortaleza, nem graça, que o Moço com seu sendeiro
é nos fumos cavaleiro, porém não cá para a praça. Outro cavaleiro airoso andou na festividade,
e vi na velocidade, com que corre, ser : por cavaleiro famoso o Povo o aclamou de novo,
eu só admirando o louvo, e acho discrição calar, que é escusado falar, quando por mim fala o Povo.
O Ripado valeroso andou bem, porém sem sorte, porque tem pouco de forte, se bem tem muito de airoso:
perdeu pouco venturoso, mas sem nenhum sentimento, um prêmio, que Brás atento ganhou, porque não se atreva
a aquilo, que também leva com as palavras o vento.
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