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1636–1696

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Gregório de Matos Guerra

Pede licença, ao Senhor, que no nome a graça traz: mas ele como sagaz o aconselha com primor:

diz-lhe, que fora melhor esta contenda escusar; porém o Mancebo alvar fiado em ser cavaleiro,

e fiado em ter dinheiro não quis o pacto aceitar. Porque se não vence não (dizia o Moço Magnata)

nem por ouro, nem por prata o seu sangue de Aragão: e vendo o Senhor D. João, que se a licença negava,

a André Cavalo ultrajava, pois podiam presumir, se ao campo o não vissem ir, que o dinheiro lhe faltava:

Lhe disse, que não só três (se corressem) mil cruzados, senão que depositados tinha André Cavalo dez:

mas o moço Aragonês vendo esta resolução, por temer a perdição, a que punha o seu dinheiro,

toma conselho primeiro co reverendo Frisão. O Padre, que sem estudo as Leis entende civis,

e com manhosos ardis obra mal, e sabe tudo: lhe diria mui sisudo com aspecto venerando,

rindo-se de quando em quando, que assim seus enganos lavra, não se lhe dê da palavra, diga, que estava zombando.

Assim foi, que o desafio veio a parar em burrada, que a palavra não val nada, se na ocasião falta o brio:

e para que com desvio não fossem mais inimigos, evitando alguns perigos em boa paz os chamou

o General, e tratou, de que fossem muito amigos. Depois das pazes enfim lhes pediu, que cavalgassem,

e um par de lanças tirassem cada qual em seu rocim: ele lhe disse, que sim, e de improviso avisou

ao Irmão, que não tardou em trazer-lhe bons arreios, cavalos, selas, e freios, e com eles se embarcou.

Num dia dos derradeiros ao Terreiro os dous chegaram, e ambos se separaram, logo dos mais cavaleiros:

cuidam, que são os primeiros Fidalgos, que a terra tem, e néscios não antevêem, que diz o Povo, e não erra,

se são Fidalgos da terra, na terra há outros também. Empinou-se-lhes a ruça, e de quatro companheiros

sem mais outros cavaleiros fizeram a escaramuça: o General se debruça para metê-los bem nela

na janela com cautela, porém usou de revoltas, porque metendo-os nas voltas, mandou cerrar a janela.

A escaramuça acabada fizeram a cortesia, e todo o Povo se ria vendo a janela fechada:

nas voltas não viram nada, que com notável trabalho no ay hombre cuerdo a cavalo, porém depois que acabaram,

e o General não acharam, ficaram de vinha-d’alhos. Cos rostos descoloridos, desesperados agora

iam por dentro, e por fora da própria cor dos vestidos: os que são desvanecidos, e de néscia presunção

presumem mais, do que são, emendem seus pensamentos, que para seus desalentos e vivo o Senhor D. João.

Não presumam, porque têm, que são mais que os pobres nobres, pois há muitos homens pobres, mui bem nascidos também:

ao pequeno não convém por pequeno desprezar, que se este quiser falar, achar pode algum defeito

que nenhum há tão perfeito, em quem se não pode achar. Seguia-se um cavaleiro ao famoso André Cavalo,

que levou sem intervalo de cada golpe um carneiro: também foi aventureiro de um prêmio: mas com defeito

dava ao corpo um grande jeito, e ficou passado, e absorto, de que fosse ao prêmio torto, e o prêmio a outro direito.

Ao famoso Brás Rabelo razão é de mestre o apode, que dar dias santos pode nesta arte, ao que for mais belo:

e se com louco desvelo, do que digo, algum se abrasa, escute a razão, que é rasa, e verá, se faz espantos,

que dar possa os dias santos, quem tem Domingos de casa. Nas lanças, que pôs mui bem, teve de prêmios ganança,

e certo, que pela Lança não o há de vencer ninguém: dos cavaleiros, que tem modernos hoje a Bahia,

leva Brás a primazia, porque não há nesta praça, quem se ponha com mais graça, fortaleza, e bizarria.

Também aquela fatal emulação de Mavorte, para os inimigos forte para os amigos ,

aplauso merece igual, pois nesta cavalaria, se aos mestres não excedia, por mais antigos na arte,

aos Modernos desta parte ele leva a primazia. Também no Machado falo, que e razão por ele acuda,

pois sempre ao cavalo ajuda, mas não o ajuda o cavalo: inda assim posso louvá-lo, dando-lhe vários apodos,

porque conheço em seus modos, e mui bem posso afirmar, que nisto de cavalgar leva vantagens a todos.

Em mau cavalo corria, mas um prêmio mereceu; veja-se, quem o perdeu, que cavaleiro seria:

aposto, que alguém diria, vendo, que as carreiras passa sem fortaleza, nem graça, que o Moço com seu sendeiro

é nos fumos cavaleiro, porém não cá para a praça. Outro cavaleiro airoso andou na festividade,

e vi na velocidade, com que corre, ser : por cavaleiro famoso o Povo o aclamou de novo,

eu só admirando o louvo, e acho discrição calar, que é escusado falar, quando por mim fala o Povo.

O Ripado valeroso andou bem, porém sem sorte, porque tem pouco de forte, se bem tem muito de airoso:

perdeu pouco venturoso, mas sem nenhum sentimento, um prêmio, que Brás atento ganhou, porque não se atreva

a aquilo, que também leva com as palavras o vento.

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