Deixar quero o vosso bem,
para tomar vosso mal,
porque o vosso bem é tal,
que do mal melhor me vem.
Se dor me infunde no peito,
Clóri, quererdes-me assaz,
dai ao demo amor, que traz
mais dano, do que proveito:
não vi amor de tal jeito
no mundo daquém, e além,
e pois simulado vem
todo o mal, que me fazeis,
neste bem, que me quereis,
Deixar quero o vosso bem.
Se mal vosso bem me influi,
bens vosso mal dará vários,
porque de agentes contrários
contrário efeito se argúi:
a consequência conclui
por força filosofal;
e pois vosso mal é tal,
que em vós doutro bem não sei,
que bens não repudiarei,
Para tomar vosso mal?
Pois o bem pelo mal troco
pelas causas, que já disse,
terei a grã parvoíce,
que vós me tenhais por louco,
que eu o que exprimento, e toco
neste bem prejudicial
me faz homem desigual,
avesso, néscio, e sandeu:
porém tal homem sou eu,
Porque o vosso bem é tal.
Se tal fora o vosso amor,
como são outros amores,
fecundo para os favores,
estéril para o rigor:
tivera a grande favor,
Clóri, quererdes, a quem
vos adorara um desdém,
que outro tempo aborrecia,
porque então não entendia,
Que do mal melhor me vem.