Amar Luís a Maria,
amaria não é amar
logo como pode estar
num tempo amar, e amaria.
Serviu Luís a Isabel
Por prêmio de um favor só
mais tempo do que Jacó
serviu à bela Raquel:
e porque Isabel infiel
o enganou de dia em dia,
em pena de aleivosia
em Maria o empreguei,
e então lhe certifiquei
Amar Luís a Maria.
Deixei-a tão persuadida,
quanto ela é presuntuosa,
que o presumir de formosa
persuade o ser querida:
porém como é entendida,
e em toda a arte de amar
sabe mui bem conjugar,
disse, tomando-me a mão,
que em boa conjugação
Amaria não é amar.
Que amaria é imperfeito,
e perfeito o ter amado,
e a um presente cuidado
não serve o plus-quão-perfeito:
vi eu a Moça de jeito,
que me pus pela quietar
nesta forma a conjugar
“Amar Luís, e amaria
não está em filosofia”,
Logo como pode estar?
Este aparente argumento,
e sutil proposição
não só tirou a questão,
mas deu-lhe contentamento:
firme enfim ao fundamento
da minha sofisteria
diz, que a boa astronomia
tem uns pontos tão sutis,
que pode estar em Luís
Num tempo amar, e amaria.