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1636–1696

SE NÃO POSSO IR RASTEJANDO

Gregório de Matos Guerra

Como se pode alcançar de dous, que se querem bem, qual terá maior pesar, se o que vai para tornar,

se o que espera, por quem vem. Se não posso ir rastejando a pena, que pode ter, quem há temor de perder

a prenda, que está logrando: e se me confundo, quando me disponho a penetrar aquela pena, e pesar,

que deixa um bem já perdido, do mal de ausente o sentido, Como se pode alcançar? Parece uma pena chica,

que chica é por tal arte, que inda que a dor se reparte, toda em um se multiplica: pena, que mais se duplica,

quanto mais partida vem, na extensão o aumento tem, que a pena, que a ausência ordena, sobre ser de dous, é pena

De dous, que se querem bem. Se é pena de dous, que se amam, quem não vê, que em tal querer dobrado incêndio há de haver,

se há dous fogos, que se inflamam: quando dous a um tempo clamam, por força se há de aumentar a um clamar outro clamar;

assim no mal de não ver-se cresce a pena, sem saber-se Qual terá maior pesar. Quem vai, porque a pena rima,

deixa a alma, que se inflama, para que anime, adonde ama muito mais, que adonde anima: quem fica, e se desanima,

quer logo as almas trocar, por confundir, e ocultar, qual mais sabe padecer, quem fica para não ver,

Se o que vai para tornar. Nesta confusão de amor duvida a perplexidade, nunca se sabe a verdade

sobre a ventagem da dor: mas o discreto Leitor, que quer lhe resolva em bem, o que o mote em si contém,

veja, que tem mais cuidado, quem não vem, sendo esperado, Se o que espera, por quem vem.

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