Como se pode alcançar
de dous, que se querem bem,
qual terá maior pesar,
se o que vai para tornar,
se o que espera, por quem vem.
Se não posso ir rastejando
a pena, que pode ter,
quem há temor de perder
a prenda, que está logrando:
e se me confundo, quando
me disponho a penetrar
aquela pena, e pesar,
que deixa um bem já perdido,
do mal de ausente o sentido,
Como se pode alcançar?
Parece uma pena chica,
que chica é por tal arte,
que inda que a dor se reparte,
toda em um se multiplica:
pena, que mais se duplica,
quanto mais partida vem,
na extensão o aumento tem,
que a pena, que a ausência ordena,
sobre ser de dous, é pena
De dous, que se querem bem.
Se é pena de dous, que se amam,
quem não vê, que em tal querer
dobrado incêndio há de haver,
se há dous fogos, que se inflamam:
quando dous a um tempo clamam,
por força se há de aumentar
a um clamar outro clamar;
assim no mal de não ver-se
cresce a pena, sem saber-se
Qual terá maior pesar.
Quem vai, porque a pena rima,
deixa a alma, que se inflama,
para que anime, adonde ama
muito mais, que adonde anima:
quem fica, e se desanima,
quer logo as almas trocar,
por confundir, e ocultar,
qual mais sabe padecer,
quem fica para não ver,
Se o que vai para tornar.
Nesta confusão de amor
duvida a perplexidade,
nunca se sabe a verdade
sobre a ventagem da dor:
mas o discreto Leitor,
que quer lhe resolva em bem,
o que o mote em si contém,
veja, que tem mais cuidado,
quem não vem, sendo esperado,
Se o que espera, por quem vem.