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1636–1696

SE HOUVERA CONFORMIDADE

Gregório de Matos Guerra

Não quero, o que vós quereis, só quero, que vós queirais aquilo, que não quereis, só quero, não quero mais.

Se houvera conformidade em um, e outro querer, ambos poderiam ser atos da mesma vontade:

porém na diversidade de uma, e de outra vereis, quando firme pergunteis, onde minha alma está posta,

como tendes por resposta, Não quero, o que vós quereis. E se acaso se oferece outro objeto a vosso amor,

e publicais por favor, que em vós só o meu floresce: esta ação nada merece, mas antes me ofende mais,

e do prêmio, que buscais, deponde a louca esperança e não ter de mim lembrança Só quero, que vós queirais.

Se nesta deformidade, que em vossas vontades há, algum meio indústria dá para haver conformidade,

é, que na vossa vontade mil impossíveis obreis, porque amando não ameis, sendo fino, o não sejais,

e não querendo queirais Aquilo, que não quereis. Se isto muito parecer em uma vontade humana

isso mesmo desengana os quilates do seu ser: pouco amor, pouco querer é força, que concedais,

pelo que não pertendais as lisonjas do meu gosto, porque, o que tenho proposto, Só quero, não quero mais.

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