Vamos ao quinto preceito, Santo Antônio vá comigo, e me depare algum meio, para livrar do seu risco.
Porque suposto que sejam quietos, mansos, benignos, quantos pisam meus oiteiros, montes, vales, e sombrios;
Pode suceder, que esteja algum áspide escondido entre as flores, como diz aquele provérbio antigo.
Faltar não quero à verdade nem dar ao mentir ouvidos, o de César dê-se a César, o de Deus a Jesus Cristo.
Não tenho brigas, nem mortes pendências, nem arruídos, tudo é paz, tranquilidade, cortejo com regozijo:
Era dourada parece, mas não é como eu a pinto porque debaixo deste ouro tem as fezes escondido.
Que importa não dar aos corpos golpes, catanadas, tiros, e que só sirvam de ornato espada, e cotós limpos?
Que importa, que não se enforquem os ladrões, e os assassinos, os falsários, maldizentes, e outros a este tonilho?
Se debaixo desta paz, deste amor falso, e fingido há fezes tão venenosas, que o ouro é chumbo mofino
É o amor um mortal ódio, sendo todo o incentivo a cobiça do dinheiro, ou a inveja dos ofícios.
Todos pecam no desejo de querer ver seus patrícios ou da pobreza arrastados, ou do crédito abatidos.
E sem outra cousa mais se dão a destro, e sinistro pela honra, e pela fama golpes cruéis, e infinitos.
Nem ao sagrado perdoam, seja Rei, ou seja Bispo, ou Sacerdote, ou Donzela metida no seu retiro.
A todos enfim dão golpes de enredos, e mexericos tão cruéis, e tão nefandos, que os despedaçam em cisco.
Pelas mãos nada; porque não sabem obrar no quinto; mas pelas línguas não há leões mais enfurecidos.
E destes valentes fracos nasce todo o meu martírio; digam todos, os que me ouvem, se falo a verdade, ou minto.
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