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1636–1696

PRECEITO 4

Gregório de Matos Guerra

Vejo, que morrem de fome os Pais daquelas, e os Tios, ou porque os vêem Lavradores, ou porque tratam de ofícios.

Pois que direi dos respeitos, com que os tais meus mancebinhos tratam esses Pais depois que deixam de ser meninos?

Digam-no quantos o vêem, que eu não quero repeti-lo, a seu tempo direi como criam estes morgadinhos.

Se algum em seu testamento cerrado, ou nuncupativo a algum parente encarrega sua alma, ou legados pios:

Trata logo de enterrá-lo com demonstrações de amigo, mas passando o Resquiescat tudo se mate no olvido.

Da fazenda tomam posse até do menor caquinho; mas para cumprir as deixas adoecem de fastio.

E desta omissão não fazem escrúpulo pequenino, nem se lhes dá, que o defunto arda, ou pene em fogo ativo.

E quando chega a apertá-los o tribunal dos resíduos, ou mostram quitações falsas, ou movem pleitos renhidos.

Contados são, os que dão a seus escravos ensino, e muitos nem de comer, sem lhes perdoar serviço.

Oh quantos, e quantos há de bigode fernandino, que até de noite às escravas pedem selários indignos,

Pois no modo de criar aos filhos parecem símios, causa por que os não respeitam, depois que se vêem crescidos.

Criam-nos com liberdade nos jogos, como nos vício, persuadindo-lhes, que saibam tanger guitarra, e machinho.

As Mães por sua imprudência são das filhas desperdício, por não haver refestela, onde as não levem consigo.

E como os meus ares são muito coados, e finos, se não há grande recato, têm as donzelas perigo.

Ou as quebranta de amores o ar de algum recadinho, ou pelo frio da barra saem co ventre crescido.

Então vendo-se opiladas, se não é do santo vínculo, para livrarem do achaque, buscam certos abortinhos.

Cada dia o estou vendo, e com ser isto sabido, contadas são, as que deixam de amar estes precipícios.

Com o dedo a todas mostro, quanto indica o vaticínio, e se não querem guardá-lo, não culpam meu domicílio.

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