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1636–1696

NUMA ILUSTRE ACADEMIA

Gregório de Matos Guerra

Perguntou-se a um discreto, qual era a morte tirana: respondeu, que estar ausente daquilo, que mais se ama.

Numa ilustre academia, que com ciências infusas fizeram as nove Musas, onde Apolo presidia:

leu o Secretário Admeto, um problema mui seleto propôs, para argumentar-se, e havendo de perguntar-se,

Perguntou-se a um discreto. Ele, que estava distante, e não ouvia a proposta, não deu por então resposta

de Surdo, e não de ignorante: mas vendo no seu semblante a academia Sob’rana, que tinha a desculpa lhana,

lhe advertiram com agrado, que lhe haviam perguntado: Qual era a morte tirana. Ele entonces como um raio

prontamente, e sem detença tomando vênia, e licença fez consigo um breve ensaio: o mais horrível desmaio

que um peito amoroso sente, é a falta do bem presente: ficou-lhe a resposta lhana; e a qual é a morte tirana,

Respondeu, que estar ausente. Deixou a resposta absorto a aquele douto congresso, porque é já provérbio expresso,

que ausente é o mesmo que morto: eu me persuado, e exorto, que quem se abrasa, e inflama de amor na contínua chama,

inda que sinta abrasar-se, e menos mal, que ausentar-se Daquilo, que mais se ama.

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