Perguntou-se a um discreto,
qual era a morte tirana:
respondeu, que estar ausente
daquilo, que mais se ama.
Numa ilustre academia,
que com ciências infusas
fizeram as nove Musas,
onde Apolo presidia:
leu o Secretário Admeto,
um problema mui seleto
propôs, para argumentar-se,
e havendo de perguntar-se,
Perguntou-se a um discreto.
Ele, que estava distante,
e não ouvia a proposta,
não deu por então resposta
de Surdo, e não de ignorante:
mas vendo no seu semblante
a academia Sob’rana,
que tinha a desculpa lhana,
lhe advertiram com agrado,
que lhe haviam perguntado:
Qual era a morte tirana.
Ele entonces como um raio
prontamente, e sem detença
tomando vênia, e licença
fez consigo um breve ensaio:
o mais horrível desmaio
que um peito amoroso sente,
é a falta do bem presente:
ficou-lhe a resposta lhana;
e a qual é a morte tirana,
Respondeu, que estar ausente.
Deixou a resposta absorto
a aquele douto congresso,
porque é já provérbio expresso,
que ausente é o mesmo que morto:
eu me persuado, e exorto,
que quem se abrasa, e inflama
de amor na contínua chama,
inda que sinta abrasar-se,
e menos mal, que ausentar-se
Daquilo, que mais se ama.