Por gentil-homem vos tendes,
por valente, e namorado,
que a um Fernandes não é dado,
e cai melhor em um Mendes:
e pois as prendas retendes,
que em boa filosofia
nenhuma em vós caberia,
tão grande amor me deveis,
que porque vós o dizeis,
vo-lo creio em cortesia.
Só por cerimônia urbana
me resolvera eu a crer,
que podeis formoso ser
tendo olhos de porcelana:
se vo-lo diz vossa mana
(que se a tendes, preta é)
por vos manter nessa fé,
sabei, que vos troca as prosas,
porque são mui mentirosas
as Negras de Marapé.
Que sois valente, bem creio,
que esses pulsos, essas pernas,
e o grosso dessas cavernas
me estão dizendo “temei-o”:
eu vos creio, e vos recreio,
não faleis mais nisso: tá,
porque em rigor, claro está,
que um valentão D. Ortis
me assusta quando mo diz,
e outra vez, quando me dá.
Mas quanto a ser namorado,
nisso consiste a questão,
que esta vez vos vou à mão,
como quem vos vai ao dado:
todo o Americano Estado,
que digo? este mundo inteiro
namorei eu tão primeiro,
que nisto de namorar
podeis vós comigo estar
a soldada de escudeiro.
Sou namorado de chapa,
e de idade pueril
de Portugal, e Brasil
tenho namorado o mapa:
nenhuma cara me escapa,
e em todo o rosto me embarco,
e vós no salgado charco
(posto que em vãos pensamentos)
sempre andais bebendo os ventos,
que é bom para o vosso barco.