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1636–1696

MESMO BARQUEIRO E PELO MESMO CASO.

Gregório de Matos Guerra

Por gentil-homem vos tendes, por valente, e namorado, que a um Fernandes não é dado, e cai melhor em um Mendes:

e pois as prendas retendes, que em boa filosofia nenhuma em vós caberia, tão grande amor me deveis,

que porque vós o dizeis, vo-lo creio em cortesia. Só por cerimônia urbana me resolvera eu a crer,

que podeis formoso ser tendo olhos de porcelana: se vo-lo diz vossa mana (que se a tendes, preta é)

por vos manter nessa fé, sabei, que vos troca as prosas, porque são mui mentirosas as Negras de Marapé.

Que sois valente, bem creio, que esses pulsos, essas pernas, e o grosso dessas cavernas me estão dizendo “temei-o”:

eu vos creio, e vos recreio, não faleis mais nisso: tá, porque em rigor, claro está, que um valentão D. Ortis

me assusta quando mo diz, e outra vez, quando me dá. Mas quanto a ser namorado, nisso consiste a questão,

que esta vez vos vou à mão, como quem vos vai ao dado: todo o Americano Estado, que digo? este mundo inteiro

namorei eu tão primeiro, que nisto de namorar podeis vós comigo estar a soldada de escudeiro.

Sou namorado de chapa, e de idade pueril de Portugal, e Brasil tenho namorado o mapa:

nenhuma cara me escapa, e em todo o rosto me embarco, e vós no salgado charco (posto que em vãos pensamentos)

sempre andais bebendo os ventos, que é bom para o vosso barco.

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