Filha minha Isabel, alma ditosa, Que do corpo as prisões desemparaste, E qual cândida flor, ou fresca rosa De teus anos a flor em flor cortaste:
De minha dor a mágoa saudosa, Que por herança d’alma me deixaste, Deves crer, que até agora não durara, Se a dar-te vida a minha dor bastara.
Não durara até agora a minha mágoa, Se fora ela bastante a dar-te vida, Porque, vivendo tu, dos olhos a água Se enxugara em dous rostos reprimida:
E sendo o peito humano a própria frágua, Onde a dor em licores derretida Corre a desafogar: se não correra, Filha Isabel, de minha dor morrera.
Morrera, Filha minha, e acabara De um doce mal, formosa enfermidade: Todo o poder do mundo me invejara, Pois falta a seu poder esta verdade:
Com minha morte a vida se trocara, Da maior, e mais alta majestade Enjeitara tudo, porque nada era, E porque a minha dor tudo excedera.
Ficara tão ufano de seguir-te, Vivo por te chorar, morto por ver-te, Que se pudera crer, que por senir-te A ocasião estimara de perder-te:
E se nesta estranheza de sentir-te Não chegara um aplauso a merecer-te, De uma a outra estranheza me passara, Gêneros novos de sentir buscara.
Sangue ondeara a margem deste rio, A rosa adoecera em suas cores, Da Aurora carmesim fora o rocio, Não recendera o ambar entre as flores:
Fora da natureza um desvario A ordem natural de seus primores: Mas nada a minha dor necessitara, Se uma vida se dera, ou se emprestara.
Se pudera emprestar-te a minha vida, Se escusara então meu sentimento: Mas ai! que nem o dá-la por perdida Remédio pode ser do meu tormento:
E já, que não é cousa permitida Celebrar um contrato tão violento, E dar a vida enfim se não tolera, A metade da minha te ofrecera.
E pois a natureza é tão escassa, Que na esfera da sua potestade Não cabe por indulto, nem por graça Uma vida partir pela metade:
E inda que o vença amor, indústria, ou traça, Me resta outra maior dificuldade, De que se hão de invejar, metade dera, Ou toda, porque inveja não tivera.
Se a metade da vida, que te ofreço, Inveja há de causar, à com que fico, E sobre dar-lhe inveja à que despeço, Que saudades lhe dê me certifico:
Para livrar-me de um, e outro tropeço, Com que nesta partida me complico, Sobre a tua metade te largara A outra metade, que órfã me ficara.
Dera-te enfim a minha vida toda, Que o mais fora desdouro da firmeza, Que sempre, quem bem ama, se acomoda Fazer a vida altar de uma fineza:
Dar tudo nunca a amor desacomoda, Dera-te a vida, e alma nesta empresa, Se a minha vida a morte te alivia, E se a minha alma enfim tua agonia.
Ásia filha maior do mar profundo, A África do mar soberania, Europa exemplar luz de todo o mundo E a América do ouro monarquia,
veriam, com quão ledo, e quão jucundo Rosto por ti minha alma despedia, Se o calor da minha alma à vida tua Substituir pudera com a sua.
O Rouxinol, que canta docemente À vista da consorte, que o namora, A Rola triste, que ao esposo ausente De dia busca, se de noite o chora:
No ar sutil, na fonte transparente, Vendo o fino de uma alma, que te adora, Pasmariam de ver, como supria Tua vida, animando a cinza fria.
A inveja, que do ódio se alimenta, A detração, que como espada corta, A calúnia, que a todos ensanguenta, E a aversão, que os áspides aborta:
Todos a iníquia mão, língua cruenta Mostrariam pasmada, obtusa, absorta; Eu só perdera a vida pela tua, Inda que a arrojo o mundo o atribua.
Pasme de assombro, ou da fineza a terra, Trema do caso, ou da estranheza o monte, De invejosas as aves se dêem guerra De corrido se mude o Horizonte:
Co’as nuvens indignadas choque a serra, Brame o mar, soe o Céu, murmure a fonte, Que eu firme nesta minha fantesia Não só a vida, a alma te daria.
Dá-la-ia não só por imitar-te, Se cabe em minha dor tão alta sorte, Senão por despojar-me, e despojar-te A mim do sentimento, a ti da morte:
Não só daria a alma por mostrar-te, Que não tenho outro alívio em mal tão forte: Senão (pois perde tanto em ser tão sua) Por melhorá-la com fazê-la tua.
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