Para retratar uns olhos
Cupido se fez pintor,
desfez o céu para tinta
moeu para luz o Sol.
De uns olhos se viu rendido
Amor, que os arpões quebrou,
porque afrontados julgou
arpões doutro arpão vencido:
cego, e turbado Cupido
guiado de seus antolhos
trilha espinhos, pisa abrolhos,
e por curar seu cuidado
um pincel pede emprestado
Para retratar uns olhos.
Para uns olhos tão brilhantes
buscava o melhor pincel,
negou-lhe Apeles cruel,
piedoso lhe deu Timantes:
como Mestres tão prestantes
puseram de morte cor,
olhos, que vencem a Amor:
nesta pena, que o soçobra,
para colorir a obra
Cupido se fez pintor.
Sempre eu vi que aos amadores
nada falta em bom primor:
porém hoje ao mesmo Amor
para pintar faltam cores:
ele perdeu as melhores
em ter a presença extinta
dos olhos belos, que pinta,
cuja cor é celestial,
e por lhe dar natural
Desfez o céu para tinta.
Para cópia tão divina,
como Amor a imaginou,
todo o aparelho tirou
dessa esfera cristalina:
excedia a ultramarina
cor desse azul arrebol,
e do divino farol
sendo precisa a luz pura,
por dar claros à pintura
Moeu para luz o Sol.