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1636–1696

DE UNS OLHOS SE VIU RENDIDO

Gregório de Matos Guerra

Para retratar uns olhos Cupido se fez pintor, desfez o céu para tinta moeu para luz o Sol.

De uns olhos se viu rendido Amor, que os arpões quebrou, porque afrontados julgou arpões doutro arpão vencido:

cego, e turbado Cupido guiado de seus antolhos trilha espinhos, pisa abrolhos, e por curar seu cuidado

um pincel pede emprestado Para retratar uns olhos. Para uns olhos tão brilhantes buscava o melhor pincel,

negou-lhe Apeles cruel, piedoso lhe deu Timantes: como Mestres tão prestantes puseram de morte cor,

olhos, que vencem a Amor: nesta pena, que o soçobra, para colorir a obra Cupido se fez pintor.

Sempre eu vi que aos amadores nada falta em bom primor: porém hoje ao mesmo Amor para pintar faltam cores:

ele perdeu as melhores em ter a presença extinta dos olhos belos, que pinta, cuja cor é celestial,

e por lhe dar natural Desfez o céu para tinta. Para cópia tão divina, como Amor a imaginou,

todo o aparelho tirou dessa esfera cristalina: excedia a ultramarina cor desse azul arrebol,

e do divino farol sendo precisa a luz pura, por dar claros à pintura Moeu para luz o Sol.

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