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1636–1696

CORAÇÃO, QUE EM PERTENDER

Gregório de Matos Guerra

Se de um bem nascem mil males, de um mal quisera saber quantos bens podem nascer? Coração, que em pertender

perdes tempo em esperanças, e quando algum bem alcanças, é por ter mais que perder: por cousas, que não têm ser,

e de que nunca te vales, como direi, que te abales? como direi, que convém, andar em busca de um bem,

Se de um bem nascem mil males? Quando um firme bem procuras, te desavéns com teus bens, porque perdendo os que tens,

noutros males te asseguras: aos bens nunca te aventuras sem certos males colher, e eu para te defender,

e a vida te conservar, um bem não tomara achar, De um mal quisera saber. Do bem os males nasceram

do mal nunca nasceu bem, salvo o mal de quem não tem bens, de que os males se geram: e inda que do mal puderam

os bens produzidos ser, se os hás de vir a perder, antes toma um mal por gosto Quantos bens podem nascer.

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