Skip to content
1636–1696

AO MESMO CRIOLLO, E PELO MESMO CASO.

Gregório de Matos Guerra

Estou pasmado e absorto, de que o Logra em qualquer pleito curasse do seu direito, e agora cure do torto:

ele fora mui bem morto, porque outra vez não insista ir, onde se lhe resista: mas se noutras ocasiões

requeria execuções, agora pedirá vista. Ia o Logra perseguindo pela rua de São Bento

certo calcanhar bichento, e ia-lhe a Negra fugindo: quando a Dafne foi seguindo Apolo pastor de Admeto:

ela por alto decreto em Louro transfigurou-se, e agora desfigurou-se, ao Logra, que fica em preto.

A Negra sumiu-se, e quem não sabe na medicina, que em se perdendo a menina, se perde o olho também:

andou o Logra mui bem em perder o olho então, porque noutra ocasião saibam, que o Logra acertado

se co’a preta é desgraçado com a branca é um Cipião. Dizem as Putas por cá com rostos muito serenos,

que o Logra cum olho menos menos as vigiará: mas quem não afirmará neste azar, nesta agonia,

que as Putinhas da Bahia ficam de melhor emprego, que as guiava um amor cego, e já agora um torto as guia.

Se é certo, que ele investia as Damas, que acarretava, quem com olhos se cegava, sem olhos o que faria?

agora é, que eu temeria, que ele me guiasse a Dama, porque suposto que as chama, será para a sua estufa,

porque quem fechou a adufa, trata já de ir para a cama. O imaginário impio quis-lhe o vulto reformar,

e em vez de o aperfeiçoar, botou-lhe a longe o feitio: saltou-lhe uma lasca em fio, e no caso que saltasse,

quis Deus, que o olho lascasse, porque o escultor estulto ou corresse ao Logra o vulto, ou de todo o acabasse.

O Imaginário, que há de todas tantas ventagens, diz, que é mau para as imagens o pau de Jacarandá:

mas que outra imagem fará tão bela, e perfeita, que sina entre as outras da Sé, ou que de outro pau, que engenha,

fará um São Miguel, que tenha o demo do Logra ao pé. O Logra ficou zarolho, porque o homem na estacada

lhe deu tão boa pancada, que foi pancada do olho: correu logo tanto molho pela cara, que ao cair,

quem foi ali acudir, disse, que quando chorava o Logra, ao olho cantava “ojos, que lo vieron ir”.

Pelo seu olho gritava, e quem o não entendia outra cousa parecia, que no olho lhe passava:

e demais gente, que estava na casa atrás do rumor, vendo o Logra em tanta dor com o olho fora da cara,

cria, que era, o que o vazara, prateiro, e não escultor. Dizem por esta Cidade, que seu Senhor enfadado

de o ver todo, e desairado lhe quer dar a Liberdade: bom fora metê-lo frade na Arrábida, ou em Buçaco,

onde vestido de saco dê graças ao Criador, que em estado o pôs melhor para ser maior velhaco.

Cookies on Poetry Cove

We use cookies to remember your language preference and — only with your consent — to learn how Poetry Cove is used. You can change your mind any time.
AO MESMO CRIOLLO, E PELO MESMO CASO. · Gregório de Matos Guerra · Poetry Cove